Mais um desafio à interativdade na TV Digital: o grátis

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A interatividade na TV Digital está em fase final de pesquisa e mais um desafio se impõe a ela. O Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital está preparando uma campanha para ser veiculada entre abril e maio deste ano para divulgar os benefícios da interatividade e do Ginga (software que permite a interatividade nos aparelhos de TV Digital).

O grande problema da interatividade na TV Digital é que ela é um desejo mais governamental (inclusão digital) do que das emissoras de televisão. As emissoras demonstram não ter nenhuma pressa para que o sistema seja oferecido aos telespectadores. E qual a razão disso? Dinheiro, claro. Sempre é dinheiro.

Durante esta semana, o Ministério das Comunicações e a Caixa Econômica Federal promoveram uma demonstração da interatividade na TV digital. Os usuários podiam experimentar o aplicativo com conteúdo interativo em tarefas de rotina, como consultas bancárias. Era possível simular diversas consultas por meio da TV, como pedir crédito imobiliário, ver os resultados de sorteios e acessar informações sobre o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o programa Minha Casa Minha Vida.

Muito bem, não teria problema nenhum se, para isso, o cidadão não deixasse de ver o que sustenta toda a indústria televisiva no país, ou seja, a propaganda. Qualquer uso do aparelho de TV que não seja para acompanhar a programação das emissoras (vídeo games, DVD, vídeo doméstico e etc.), significa queda na audiência e, conseqüentemente, queda no valor dos espaços publicitários dos programas. Como esperar que as emissoras de televisão apóiem um sistema que irá prejudicá-las. Há quem tenha a solução: é so cobrar por isso. O problema de se cobrar pelos serviços interativos na TV Digital é que isto está indo de encontro à tendência do mundo virtual. A moda agora é o grátis.

Chris Anderson, editor da revista Wired, traz uma idéia polêmica em seu novo livro. No mundo virtual, pagaremos cada vez menos por produtos e serviços.

Free: grátis: o futuro dos preços. Elsevier, 2009.
O autor argumenta que, em muitos casos, as empresas lucrarão mais oferecendo produtos e serviços gratuitos do que cobrando por eles. Não que este sistema não exista hoje, mas, mais do que brindes ou bônus, oferecer produtos gratuitamente será parte do sistema produtivo. Isto se deve as transformações e avanços da tecnologia na manufatura e distribuição dos insumos primários da cadeia produtiva.

"Os custos associados à crescente economia on-line se aproximam de zero em uma velocidade incrível. Nunca no decorrer da história humana, os insumos primários em uma economia industrial tiveram preços reduzidos tão rapidamente e por tanto tempo".

Empiricamente, podemos afirmar que a Internet se tornou popular quando os preços do acesso e dos computadores caíram e continuam caindo. Será possível que os telespectadores, acostumados com a gratuidade da TV Aberta analógica, irão aceitar pagar qualquer que seja o preço para assistirem ao seu programa preferido? Como a interatividade dará lucro às emissoras? São questões importantes, pois estão diretamente ligadas à gestão das empresas de comunicação.

O livro de Anderson não trata das questões relativas à TV Digital, mas sua leitura nos mostra um futuro possível na economia virtual. E como estamos caminhando para ela a passos largos, vale muito a pena uma leitura.
 

Mau jornalismo

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Folha de S. Paulo deu um exemplo de "mau jornalismo" ao publicar uma notícia tendenciosa sobre a Telebrás e o Plano Nacional de Banda Larga que o Governo Federal espera lançar em meados de março deste ano.

Graças a Internet e a variedade de fontes, a notícia está perdendo força e ficando evidente que foi uma notícia plantada pelo referido jornal. O PNBL vai de encontro aos interesses das operadoras que prestam um serviço de banda larga deficitário e caro. O Brasil ocupa a 35ª colocação em um ranking de 45 países. Não interessa de forma alguma para as prestadoras brasileiras, um plano de governo que promete investir R$ 14 bilhoes no segmento, levando banda larga a grande parte do país a um preço acessível. Sem esquecer que o grupo UOL, dono do jornal, é também um provedor de acesso e não tem interesse nenhum em um plano como este.

Prova deste mau jornalismo praticado pelo jornal Folha de S. Paulo é o comentário publicado por Luis Nassif, que reproduzo aqui.

Eletronet: a denúncia não se sustenta

23/02/2010 - 16:12

Não estou conseguindo entender a matéria da Folha sobre a Eletronet. Os dados não batem com o que está acontecendo. O repórter Márcio Aith – que se tornou especialista em missões especiais – definiu uma tese e escondeu informações essenciais que a desmentiam. Mais uma jogada em que se misturam informações técnicas incompletas com conclusões que não se sustentam nos fatos.
A história é a seguinte.
Lá atrás, criou-se a Lightpar, para permitir investimentos em redes de fibras óticas. Montou-se a rede, a empresa não deu certo e faliu.
A partir dali, criou-se um imbróglio.
A AES repassou para o tal Nelson sua parte na Lightpar – equivalente a 51% das ações de uma empresa com capital negativo (tinha mais dívidas que ativos). A Eletrobras tem outros 49%.
Acontece que a Eletronet é uma concessão pública. Decretada sua falência, a Eletrobras retomou a rede de fibras óticas, sem pagar nada por ela. Simplesmente cassando a concessão. É uma confusão porque entram Aneel (que regula o setor elétrico) e Anatel (que regula as telecomunicações). Mas a intenção clara da ação do governo  foi tomar a empresa sem pagar nada aos demais acionistas.
O problema ocorreu com os credores, fornecedores das fibras óticas – Furukawa e Lucent – que têm R$ 800 milhões a receber. E querem saber como o governo, depois de retomar a empresa, vai fazer para quitar as dívidas. Essa ação corre na Justiça. A rigor, nesse imbróglio jurídico, não há o menor espaço para nenhuma espécie de pagamento ao tal Nelson, que não é credor de nada, apenas sócio de uma massa falida.
Aith é um repórter complicado. Desde que passou pela Veja, algo se quebrou no seu rigor de repórter.
Por exemplo, no texto ele fala em pagamento de R$ 200 milhões ao Nelson. Se a Eletrobras já retomou a empresa sem pagar um tostão, de onde ele tirou a história do pagamento de R$ 200 milhões?
No texto da matéria, tudo o que se tem é isso:
Com a reativação da Telebrás, Santos poderá sair do negócio com cerca de R$ 200 milhões.
Não diz quem vai pagar, de que forma, a troco de quê. Não informa que a Eletrobras já retomou as fibras óticas da empresa e vai tocar o projeto sem nenhum sócio privado. Esconde dados.
Pode ser que Aith tenha alguma informação adicional. Mas quem tem, publica. Se não publica, é porque inventou ou não apurou devidamente.
Outro ponto colocado é a questão da caução judicial. Para retomar a empresa, os credores (não o Nelson, que é devedor) exigiram uma caução, que garantisse o pagamento das dívidas. O governo tentou colocar títulos. O juiz não aceitou. Está se discutindo agora a caução em dinheiro. Só que a caução é para garantir os direitos dos credores de uma massa falida, não dos acionistas.
O que diz o Aith?
Outro ponto que espanta os observadores desse processo é que o governo decidiu arcar sozinho, sem nenhuma contrapartida de Santos, com a caução judicial necessária para resgatar a rede de fibras ópticas, hoje em poder dos credores.
Ora, mas se a ideia é o governo retomar a rede de fibras óticas sem pagar nada à Eletronet, qual a razão do sócio Santos depositar caução? Teria lógica se ele fosse ficar com um pedaço da Eletronet.
Aith vai mais longe. Pega uma fala de Lula:
“Nós estamos brigando há cinco anos para tomar conta da Eletronet, que é uma empresa pública que foi privatizada, que faliu, e que estamos querendo pegar de volta”, disse na ocasião.
E conclui, da própria cabeça, isso:
Lula não mencionou que, para isso, terá de entrar em acordo com as sócias privadas da Eletronet, entre elas a Star Overseas, de Nelson dos Santos, que contratou os serviços de Dirceu.
Não informa os leitores que a retomada já foi feita, sem nenhuma espécie de pagamento e há uma discussão na Justiça que nada tem a ver com as ações da massa falida.
Essa atividade de consultor, do José Dirceu, é polêmica, não combina com a atividade de articulador político. Mas não há nenhum dado objetivo que a ligue à questão da Eletronet.
A dúvida pertinente é sobre a motivação de tal matéria. Pode ser briga de credores insatisfeitos com o não pagamento de suas dívidas. Pode ser o próprio Nelson, sabendo que sua aposta na empresa micada não vai dar em nada. Pode ser uma tentativa de torpedear o projeto de banda larga do governo. Ou uma tentativa de atingir a Ministra-Chefe da Casa Civil., que está tocando o projeto da banda larga.
A única certeza: foi mais uma jogada da Folha e do Aith.

Artigo publicado por Luis Nassif no endereço:
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/02/23/eletronet-a-denuncia-nao-se-sustenta/
 

Censura outra vez?

Você acredita que o Governo Federal deva regulamentar e fiscalizar a indústria farmacêutica impedindo abusos e fornecimento de medicamentos ineficazes ou prejudiciais a saúde? Por acaso, acha correto a regulamentação do setor alimentício na tentativa de proteger a população do fornecimento de alimentos ruins, de má procedência ou fabricação? Acha correto a regulamentação do setor industrial? Então, porque não concorda com a regulamentação da mídia?

Veículos de comunicação já declaram abertamente que o plano de governo de Dilma Rousseff prevê o controle da mídia, ou seja, pregam que a censura retornará ao país. Um absurdo. Seria no mínimo contraditório para uma pessoa que foi presa e torturada, exatamente pela censura, se valer deste artifício autoritário.

Os que pregam que a mídia deva se auto-regulamentar talvez imaginem que os sistemas de mídias são totalmente imparciais, que não são empresas de capital que visam lucro e que não tratam a informação como um produto a ser entregue para consumo, e o que é pior, não acreditam que sejam capazes de usar a estrutura midiática para defender seus interesses.  Se você acredita nisso, com certeza acredita também em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e duendes. 

O que prevê o plano são mecanismos que diminuam ou ponham fim ao monopólio das comunicações, que, aliás, é pauta na União Européia e ocorre nos EUA desde 1930.
Regulamentar não é censura
 

Comunicação Comparada

Reproduzo aqui os comentários de Alberto Dines, sobre a cobertura dos três maiores jornais do País, do Congresso que lançou Dilma Rousseff como candidata à Presidência. 

As manchetes unânimes

22/02/2010 |
Alberto Dines*
Observatório da Imprensa
O governo, ao que parece, pretende converter a escolha do sucessor do presidente Lula num plebiscito, por isso aposta numa intensa comparação entre os seus dois mandatos com os dois mandatos do antecessor, o presidente FHC.
Todas as eleições são plebiscitárias, sem exceção, e todas costumam ser muito disputadas. Mas por conta de um confronto que ainda não aconteceu, a imprensa antecipou-se e aproveitou o 4º Congresso Nacional do PT para acirrar os ânimos.
Exemplo disso foram as manchetes dos três jornalões (Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Globo) no sábado (20/2), a propósito da apresentação das diretrizes do programa de governo da candidata Dilma Rousseff. Idênticas no fraseado e no espírito, as manchetes não parecem ter saído em veículos concorrentes (os grifos são nossos):

** O Estadão declarou: "Petistas decidem radicalizar projeto de governo de Dilma"
** Na Folha: "PT apresenta programa mais radical para Dilma"
** No Globo: "PT aprova programa radical para a campanha de Dilma" 

Revolucionária, subversiva

Em que consiste esta radicalização? Criação do imposto sobre fortunas, combate ao monopólio da comunicação, jornada de trabalho de 40 horas semanais, fim da criminalização das invasões de propriedades rurais e adoção do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos.
Ora, a taxação de heranças e fortunas é uma antiga aspiração da social-democracia européia, foi falada ao longo do governo FHC, depois engavetada, porém jamais classificada como radical – no máximo, inoportuna.
O combate aos monopólios de comunicação existe nos Estados Unidos desde os anos 1930, hoje é rotina na União Européia.
A diminuição da jornada semanal de trabalho está sendo prometida pelo deputado federal Michel Temer do PMDB paulista, que não chega a ser um radical de esquerda, ao contrário, está no pólo oposto.
A criminalização ou descriminalização das invasões de propriedades depende do Judiciário.
O Programa Nacional de Direitos Humanos também começou no governo FHC e nada tem de radical: é apenas abrangente como recomendam os organismos internacionais.
Compreende-se o fervor das manchetes, sobretudo no finalzinho do carnaval. Afinal, eleição vende jornal, aumenta a circulação, traz prestígio e poder. Prematuro, provocador, é falar em radicalização antes mesmo que haja sinais dela.
O discurso da candidata no dia seguinte (publicado nas edições de domingo, 21/2) nada tinha de extremado: sua proposta de um Estado "forte", isto é, regulador e executor, nada tem de revolucionária ou subversiva. Se adotada antes da débâcle financeira global teria salvo o capitalismo do naufrágio. Apenas a Folha e o Estadão agarraram-se ao discurso da pré-candidata; o Globo deixou-o em segundo plano.

*Sobre comentário para o programa radiofônico do OI, 22/2/2010.
 
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