Fragmentação e Poder

terça-feira, 30 de março de 2010

Zeitgeist é um termo alemão cuja tradução significa “o espírito do tempo” ou “espírito de uma época”. Qual é o espírito do nosso tempo? Castells aponta que estamos vivendo uma revolução na forma de se comunicar que só encontra paralelos na invenção do alfabeto. A história já nos mostrou que se há uma revolução, certamente também há uma contra-revolução. Talvez isso explique por que em plena democratização da mídia o tema liberdade de expressão esteja em pauta em muitos seminários e congressos.

Nos dias 24 e 25 de março deste ano, participei de um seminário sobre liberdade de expressão no Memorial da América Latina, São Paulo. O evento contou com a presença de Alberto Dines, Eugênio Bucci, José Maria Mayrink , Demétrio Magnoli, entre outros. Apesar da era da informação propiciar o surgimento de inúmeros sites, blogs e, de aparentemente, democratizar a informação, a impressão que tive é de que estamos caminhando em terreno perigoso.

São duas as correntes que disputam a atenção da sociedade em um momento delicado de nosso crescimento democrático.  Durante o seminário, o sociólogo Demétrio Magnoli, colunista do Estado de S. Paulo e O Globo, expôs a doutrina contemporânea do “terror midiático”, surgida após um congresso na Venezuela, onde a mídia é vista como um campo de batalha a ser observado pelo estado. A doutrina prega o controle social da mídia. Cartilha pela qual, reza o governo atual no Brasil, na opinião do sociólogo. Magnoli também participou, semanas atrás, do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo instituto Millenium. O instituto se diz defensor dos valores fundamentais para a prosperidade e o desenvolvimento humano da sociedade brasileira. Dentre seus membros citamos: Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, João Roberto Marinho, vice-presidente das organizações Globo, Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, dentre outros, e tem como presidente, Patrícia Carlos de Andrade, ex-funcionária do banco Icatu e JPMorgan. O fórum deixou bem claro ser totalmente contra qualquer tipo de controle social da mídia. Atacou o atual governo de querer fazê-lo e nas palavras de Arnaldo Jabor, a questão principal “é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo”?

Por outro lado, Dines aponta em sua fala que “fazer jornalismo hoje no Brasil e na América Latina está se tornando mais difícil e mais complicado do que no passado recente”. Mais até do que nos “tempos de chumbo”, um pouco disto devido aos lobbys dos conglomerados de comunicação. Para o jornalista, “na verdade somos o campo de batalha onde se trava uma guerra escancarada pela conquista dos corações e mentes em sociedades carentes de referências primárias e atordoadas pelo excesso de informações secundárias”.

Por fim, as evidências de que a organização religiosa Opus Dei e universidade de Navarra, estendem suas influências no jornalismo brasileiro, através do curso Master em Jornalismo, um programa de capacitação de editores que já formou mais de 200 cargos de chefias dos principais jornais do País, demonstram que essa batalha está longe do fim.

Por diversas vezes, mídia e poder se relacionaram promiscuamente. Se a era da informação não conseguiu ainda democratizar os meios de comunicação, uma coisa é certa, ela está fragmentando a audiência. Em entrevista ao Interação Midiática, a pesquisadora Cosette Castro analisa a questão da fragmentação da audiência via as tecnologias de informação, em especial, a TV Digital.

Interação Midiática: Na história da América Latina a mídia sempre teve um importante papel de consolidação de alguns estados de direita, Chávez tenta quebrar essa condição de uma maneira mais radical, você acredita que a fragmentação da audiência, ocasionada pelas novas tecnologias poderá alterar esse poder de influência da mídia?

Cosette Castro: Vamos ver. A fragmentação das audiências não começa com as TICs, mas com a chegada da TV por assinatura, em suas diferentes modalidades, que também é um tipo de tecnologia  paga. Estamos falando nos anos 80 do século XX. Embora a TV por assinatura não tenha tido uma papel fundamental no Brasil, ela é super importante em outros países como Argentina, Chile, EUA, por exemplo. Na Argentina a população que tem TV por assinatura é de quase 80% e eles seguem vendo TV. Aliás, como em outros países, a população assiste TV por assinatura muito mais por problemas geográficos e de recepção de imagem. Não creio que a chegada das TIC vai alterar a influencia de mídias como a TV, mas sim de jornais, que são pouco lidos na Região dada a cultura audiovisual que temos. Veja, creio que essa fragmentação ajuda as audiências, pois pela primeira vez na história as mídias, as grandes empresas de comunicação, não são o único espaço para receber informações. Assim circulam outras versões dos fatos e o que temos são audiências mais rápidas, exigentes e inquietas, usando diferentes plataformas tecnológicas.

IM: Então você não acredita como dizem alguns, que a TV aberta irá ser afetada pelas novas tecnologias a ponto de alterar seu papel social, principalmente no Brasil?

Cosette: A pessoa pode não ter TV digital interativa (ainda) ou mesmo acesso a computador mediado por internet, mas têm celulares, que hoje chegam a 176 milhões no país (dados da revista Convergencia Digital) e recebem as noticias por torpedo. Ou por meios alternativos a mídia oficial, como as rádios comunitárias. Isso ocorreu na Venezuela. Creio que vamos ter todo o tipo de conteúdo, mas com um diferencial, a TVD interativa vai oferecer Ead, serviços públicos, redes sociais, ampliando e não diminuindo seu papel social, particularmente em países como o Brasil, onde 98% da informação chega através da televisão, que além disso, tem um papel socializador super importante. A TV aberta e gratuita vai competir com as outras plataformas, mas as pessoas já sabem como usá-la, conhecem o controle remoto e fica mais fácil adaptar-se a passagem da TV analógica para a digital.

IM: Há um problema ainda não resolvido que é a questão da publicidade. Qualquer uso do aparelho de TV para outra coisa que não a exibição de programas produzidos pelas emissoras é mais um desafio ao modelo de negócios da TV aberta. A interatividade é bem vista pelas emissoras?

Cosette: Vamos por partes. A TV aberta, gratuita e pública tem esse papel e a responsabilidade de desenvolver canais da Cultura, da Educação (já existe, mas adaptá-lo a interatividade), da Inovação e os canais informativos da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação). Isso por si só já é um desafio para a TV pública, o que inclui pensar os canais do legislativo e judiciário, comunitários e universitários. No caso das primeiras TVs públicas que comentei acima, há a oportunidade histórica de tomarem a frente desse processo e mostrarem diferencial - via interatividade, convergência de mídias, mobilidade e multiprogramação - em relação as TVs abertas comerciais que só vão apostar na interatividade quando o modelo de negócios estiver claro. Há quatro anos nos congressos da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), a Rede Globo nem aceitava falar em interatividade e multiprogramação. Esse discurso vem mudando ano a ano e a Globo criou um departamento de novas mídias que não deixa ninguém chegar perto. Acredito que eles estão se esperando alguma empresa dar o primeiro passo para mostrar o que têm.

IM: Certamente teremos, então, uma situação de interesses opostos entre governo X emissoras privadas?

Cosette: Já há agencias de publicidade em SP desenvolvendo comerciais para TVD interativa. Sem dúvida, mas isso era de se esperar. As empresas querem lucrar e ter o menor gasto possível. Esses gastos não são apenas no campo das tecnologias. São também no investimento e desenvolvimento de novos conteúdos e na formação e atualização do pessoal da área técnica e criativa para as possibilidades da TVD i. Isso se reflete nas reuniões do Fórum Brasileiro de TV Digital, onde aparecem os diferentes interesses da indústria, que não queria embutir o middlewere Ginga nas TVDs; até que a LG foi lá e fez. Agora a área industrial tem que correr atrás. Também entre os lojistas havia ‘corpo mole’ em oferecer os televisores ou caixas de conversão a preços baixos. Houve toda uma negociação do governo para viabilizar produtos mais baratos aos consumidores. Isso começa a aparecer agora, com os grandes lojistas oferecendo prestações para a população. E entre as empresas de comunicação, então; tentaram barrar interatividade; ou celulares que ofereçam os dois canais gratuitos de TVD. Faz parte dos diferentes interesses. Mas o Fórum está ali, representando o governo e as empresas, indústrias, academia. É muito interessante observar esses movimentos.



Fontes

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=583JDB001
http://www.imil.org.br/institucional/quem-somos/
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4561
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1106784-1664-9,00.html




Cosette Espíndula de Castro
Atualmente desenvolve estudos de Pós-Doutorado na Cátedra da Unesco de Comunicação/Metodista. É doutora em Comunicación y Perodismo pela Universidade Autônoma de Barcelona/ Espanha, país onde viveu entre 1998 e 2003. Defendeu a tese em 2003, quando recebeu nota 10 com louvor. Possui mestrado em Comunicação e Cultura pela PUC/RS (1997); Especialização em Educação Popular pela Unisinos/RS (1996) e graduação em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas/RS (1984). É coordenadora do GT de Contenidos Digitales da Sociedade da Informação para América Latina e Caribe e coordena o GP de Conteúdos Digitais e Convergência Tecnológica da Intercom. É pesquisadora CNPq, onde coordena o grupo de Pesquisa sobre Comunicação Digital e Interfaces Culturais na América Latina.
 

Liberdade de expressão

sábado, 27 de março de 2010

Nos dias 24 e 25 deste mês, participei do seninário Liberdade de Expressão / Direito à informação nas sociedades contemporâneas da América Latina, sob a coordenação da professora Cremilda Medina , no Memoria da América Latina, Barra Funda - SP.
Entre os palestrantes, o jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, destacou sua trajetória em mais de 50 anos de profissão. O vídeo abaixo contém a parte introdutória de sua fala, uma análise contundente da imprensa nos dias de hoje e os mecanismos de censura que são utilizados atualmente em contraste aos dos "tempos de chumbo" e seu mais recente caso de censura, que resultou na expulsão do Observatório da Imprensa do portal IG.
Em breve, será disponibilizado a palestra completa de Dines.

Outra vez???

 

Estudar ou jogar?

terça-feira, 23 de março de 2010

As transformações que as novas tecnologias da informação estão impondo a sociedade vêm questionando velhos hábitos e paradigmas.  Cada vez mais as escolas estão se aparelhando com dispositivos tecnológicos na tentativa de acompanhar as mudanças e prender o aluno na escola, principalmente as escolas privadas. O problema é que apenas trazer o computador e todos seus periféricos para dentro de sala de aula é um erro comum de quem pensa que a basta o acesso a tecnologia para que as transformações ocorram. Alguma até que realmente ocorrem, mas quando a estrutura do ambiente mantém velhas ideologias a coisa fica complicada.

Um bom exemplo são os games. O que diz a tradição? Que ficar jogando é perda de tempo. “Desliga esse vídeo game e vai estudar menino...” com certeza alguma mãe já proferiu essa frase.  Acontece que os games estão invadindo alguns setores da nossa vida, dentre eles o trabalho e a escola. Estamos percebendo que a competitividade aumenta a produção e o desempenho escolar.  Não quer dizer que devemos parar de estudar para jogar, mas estudar jogando. O que daria mais prazer ao aluno, decorar história ou jogar disputando o descobrimento das Américas. Todo ambiente escolar propicia a realização de atividades competitivas nos currículos escolares, não as utilizamos ainda por puro preconceito.
 

A mídia manipula?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ano eleitoral é sempre assim, a guerra política ganha destaque na imprensa e a batalha de interesses corporativistas se afloram. A mídia é o principal palco desta guerra. Abaixo, segue artigo escrito por Mauro Carrara e mostra que esta guerra já começou


Jornalista denuncia plano midiático contra Lula, Dilma e o PT


14/03/2010

Mauro Carrara
Portal Vermelho

Em texto reproduzido no blog Escrivinhador, o jornalista Mauro Carrara denuncia um suposto plano midiático intitulado "Tempestade no Cerrado" que, segundo ele, está sendo implementado pelos principais meios de comunicação do país contra o governo Lula, a pré-candidata Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Ao final do texto ele sugere "cinco tarefas" aos internautas para responder aos ataques da direita. Veja abaixo a íntegra do texto:

Operação “Tempestade no Cerrado”: o que fazer?

(O PT é um partido sem mídia...
O PSDB é uma mídia com partido)

“Tempestade no Cerrado”: é o apelido que ganhou nas redações a operação de bombardeio midiático sobre o governo Lula, deflagrada nesta primeira quinzena de Março, após o convescote promovido pelo Instituto Millenium.A expressão é inspirada na operação “Tempestade no Deserto”, realizada em fevereiro de 1991, durante a Guerra do Golfo.

Liderada pelo general norte-americano Norman Schwarzkopf, a ação militar destruiu parcela significativa das forças iraquianas. Estima-se que 70 mil pessoas morreram em decorrência da ofensiva.

A ordem nas redações da Editora Abril, de O Globo, do Estadão e da Folha de S. Paulo é disparar sem piedade, dia e noite, sem pausas, contra o presidente, contra Dilma Roussef e contra o Partido dos Trabalhadores.

A meta é produzir uma onda de fogo tão intensa que seja impossível ao governo responder pontualmente às denúncias e provocações.

As conversas tensas nos "aquários" do editores terminam com o repasse verbal da cartilha de ataque.

1) Manter permanentemente uma denúncia (qualquer que seja) contra o governo Lula nos portais informativos na Internet.

2) Produzir manchetes impactantes nas versões impressas. Utilizar fotos que ridicularizem o presidente e sua candidata.

3) Ressuscitar o caso “Mensalão”, de 2005, e explorá-lo ao máximo. Associar Lula a supostas arbitrariedades cometidas em Cuba, na Venezuela e no Irã.

4) Elevar o tom de voz nos editoriais.

5) Provocar o governo, de forma que qualquer reação possa ser qualificada como tentativa de “censura”.

6) Selecionar dados supostamente negativos na Economia e isolá-los do contexto.

7) Trabalhar os ataques de maneira coordenada com a militância paga dos partidos de direita e com a banda alugada das promotorias.

8) Utilizar ao máximo o poder de fogo dos articulistas.

Quem está por trás

Parte da estratégia tucano-midiática foi traçada por Drew Westen, norte-americano que se diz neurocientista e costuma prestar serviços de cunho eleitoral.

É autor do livro The Political Brain, que andou pela escrivaninha de José Serra no primeiro semestre do ano passado.

A tropicalização do projeto golpista vem sendo desenvolvida pelo “cientista político” Alberto Carlos Almeida, contratado a peso de ouro para formular diariamente a tática de combate ao governo.

Almeida escreveu Por que Lula? e A cabeça do brasileiro, livros que o governador de São Paulo afirma ter lido em suas madrugadas insones.

O conteúdo

As manchetes dos últimos dias, revelam a carga dos explosivos lançados sobre o território da esquerda.
Acusam Lula, por exemplo, de inaugurar uma obra inacabada e “vetada” pelo TCU.
Produzem alarde sobre a retração do PIB brasileiro em 2009.
Criam deturpações numéricas.
A Folha de S. Paulo, por exemplo, num espetacular malabarismo de ideias, tenta passar a impressão de que o projeto “Minha Casa, Minha Vida” está fadado ao fracasso.
Durante horas, seu portal na Internet afirmou que somente 0,6% das moradias previstas na meta tinham sido concluídas.
O jornal embaralha as informações para forjar a ideia de que havia alguma data definida para a entrega dos imóveis.

Na verdade, estipulou-se um número de moradias a serem financiadas, mas não um prazo para conclusão das obras. Vale lembrar que o governo é apenas parceiro num sistema tocado pela iniciativa privada.

A mesma Folha utilizou seu portal para afirmar que o preço dos alimentos tinha dobrado em um ano, ou seja, calculou uma inflação de 100% em 12 meses.
A leitura da matéria, porém, mostra algo totalmente diferente. Dobrou foi a taxa de inflação nos dois períodos pinçados pelo repórter, de 1,02% para 2,10%.
Além dos deturpadores de números, a Folha recorre aos colunistas do apocalipse e aos ratos da pena.

É o caso do repórter Kennedy Alencar. Esse, por incrível que pareça, chegou a fazer parte da assessoria de imprensa de Lula, nos anos 90.
Hoje, se utiliza da relação com petistas ingênuos e ex-petistas para obter informações privilegiadas. Obviamente, o material é sempre moldado e amplificado de forma a constituir uma nova denúncia.
É o caso da “bomba” requentada neste março. Segundo Alencar, Lula vai “admitir” (em tom de confissão, logicamente) que foi avisado por Roberto Jefferson da existência do Mensalão.

Crimes anônimos na Internet

Todo o trabalho midiático diário é ecoado pelos hoaxes distribuídos no território virtual pelos exércitos contratados pelos dois partidos conservadores.

Três deles merecem destaque...

1) O “Bolsa Bandido”. Refere-se a uma lei aprovada na Constituição de 1988 e regulamentada pela última vez durante o governo de FHC. Esses fatos são, evidentemente, omitidos. O auxílio aos familiares de apenados é atribuído a Lula. Para completar, distorce-se a regra para a concessão do benefício.

2) Dilma “terrorista”. Segundo esse hoax, além de assaltar bancos, a candidata do PT teria prazer em torturar e matar pacatos pais de família. A versão mais recente do texto agrega a seguinte informação: “Dilma agia como garota de programa nos acampamentos dos terroristas”.

3) O filho encrenqueiro. De acordo com a narração, um dos filhos de Lula teria xingado e agredido indefesas famílias de classe média numa apresentação do Cirque du Soleil.

O que fazer

Sabe-se da incapacidade dos comunicadores oficiais. Como vivem cercados de outros governistas, jamais sentem a ameaça. Pensam com o umbigo.
Raramente respondem à injúria, à difamação e à calúnia. Quando o fazem, são lentos, pouco enfáticos e frequentemente confusos.
Por conta dessa realidade, faz-se necessário que cada mente honesta e articulada ofereça sua contribuição à defesa da democracia e da verdade.

São cinco as tarefas imediatas...

1) Cada cidadão deve estabelecer uma rede com um mínimo de 50 contatos e, por meio deles, distribuir as versões limpas dos fatos. Nesse grupo, não adianda incluir outros engajados. É preciso que essas mensagens sejam enviadas à Tia Gertrudes, ao dentista, ao dono da padaria, à cabeleireira, ao amigo peladeiro de fim de semana. Não o entupa de informação. Envie apenas o básico, de vez em quando, contextualizando os fatos.

2) Escreva diariamente nos espaços midiáticos públicos. É o caso das áreas de comentários da Folha, do Estadão, de O Globo e de Veja. Faça isso diariamente. Não precisa escrever muito. Seja claro, destaque o essencial da calúnia e da distorção. Proceda da mesma maneira nas comunidades virtuais, como Facebook e Orkut. Mas não adianta postar somente nas comunidades de política. Faça isso, sem alarde e fanatismo, nas comunidades de artes, comportamento, futebol, etc. Tome cuidado para não desagradar os outros participantes com seu proselitismo. Seja elegante e sutil.

3) Converse com as pessoas sobre a deturpação midiática. No ponto de ônibus, na padaria, na banca de jornal. Parta sempre de uma concordância com o interlocutor, validando suas queixas e motivos, para em seguida apresentar a outra versão dos fatos.

4) Em caso de matérias com graves deturpações, escreva diretamente para a redação do veículo, especialmente para o ombudsman e ouvidores. Repasse aos amigos sua bronca.

5) Se você escreve, um pouquinho que seja, crie um blog. É mais fácil do que você pensa. Cole lá as informações limpas colhidas em bons sites, como aqueles de Azenha, PHA,Grupo Beatrice, entre outros. Mesmo que pouca gente o leia, vai fazer volume nas indicações dos motores de busca, como o Google. Monte agora o seu.

A guerra começou. Não seja um desertor.
 

América Latina livre

domingo, 14 de março de 2010

O mundo está mudando. Já afirmei isto várias vezes, mas nunca imaginei que veria isto acontecer diante dos meus olhos. Mais uma prova disto é a que os EUA não são mais os mesmos. Protagonista da maior crise mundial do capitalismo de 80 anos para cá e uma política externa ainda do pós-guerra (a segunda Grande Guerra), os americanos, acostumados a olhar sempre para o próprio umbigo, parecem não perceber a velocidade dessas mudanças.

Quem poderia imaginar que os países da América Latina e países do Caribe formariam uma organização internacional e deixassem de fora os EUA e o Canadá? Quem poderia imaginar que o Brasil imporia uma retaliação a produtos americanos? Quem poderia imaginar que a secretária Hilary Clinton viesse ao Brasil pedir que nosso Presidente apóie Mr. Obama contra o Irã e levasse um puxão de orelha: “não se deve colocar o Irã contra a parede”, afirmou Lula.

Pode parecer pouca coisa, mas quem melhor para decidir sobre o futuro de uma nação que seus próprios cidadãos. Podemos tomar muitas decisões erradas, mas iremos aprender com nossos próprios erros e não servir aos interesses de americanos, Banco Mundial ou FMI. Se continuarmos assim, então, veremos uma América Latina realmente livre.
 

E o Oscar vai para...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Eu não aprendo mesmo. Em toda premiação do Oscar eu me esqueço que esta é uma festa particularmente americana e me deixo levar acreditando que os filmes realmente bons ou que contribuam com a indústria, arte ou ciência (que é a razão de ser da academia) vençam. Neste ano não foi diferente. Guerra ao Terror foi o grande vencedor, aliás, para mim deveria se chamar guerra à falta de vergonha na cara.

O filme é mediano, bonzinho. Sua maior qualidade é ter sido feito com maior competência do que Distrito 9, que também foi um filme realizado com orçamento modesto. No mais, está longe de ser um filme que contribua com os princípios da “academia”. Mas, como disse no início, me esqueço que esta é uma festa essencialmente americana e Guerra ao Terror ganhou mais por suas conotações políticas do que sua qualidade fílmica.

Assim como demorou algum tempo para que filmes como Platoon e Nascido para Matar escancarassem o erro que foi a guerra do Vietnã, irá demorar algum tempo para que a invasão ao Iraque seja exposta na tela por seus reais motivos. Sem ter o que falar até o momento, o filme foca o cotidiano de soldados que desarmam bombas. Porque não falar da mentira que é esta guerra, que de guerra ao terror não tem nada, pois o Iraque não possuía e nem possui armas de destruição em massa e nem escondiam Bin Laden, como acusavam o governo americano?

Então, o Oscar vai para...
 

O fim do tubo de raios catódicos

terça-feira, 2 de março de 2010

Disco de vinil, fitas K7, disquete 3.5, são exemplos de alguns dispositivos tecnológicos que se tornaram obsoletos e hoje não justificam mais sua produção em escala industrial. Com a popularização da TV Digital e a comercialização de televisores LCD, Plasma e no sistema 3D, outro dispositivo tecnológico deverá ser aposentado: o tudo de raios catódicos nos aparelhos de televisão.

O tudo de raios catódicos catódicos consiste em um tubo a vácuo que quando energizado, produz um feixe de elétrons que ao atingir a tela do aparelho de TV, revestida de fósforo, forma a imagem. A quantidade de luz emitida é tão alta que parte dela atravessa a tela atingindo as pessoas frente ao aparelho. A aposentadoria do TRC não é apenas a substituição de um dispositivo por outro mais eficiente, ela altera profundamente os apectos psíquicos do ato de ver TV. Esta hipótese se baseia nas teorias de Marshall McLuhan apresentadas em seu livro, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. Editora Cultrix, 1996.

Suas idéias sobre a televisão e sua capacidade de alterar nossos padrões pisíquicos causam controvérsia ainda hoje. McLuhan afirma que desde o aparecimento da TV as crianças passaram a ler a apenas 15 centímetros de distância dos livros. Desta forma, procuram obter o mesmo grau de envolvimento que o aparelho de televisão proporciona.

No início dos anos 60 Alan Mackworth desenvolveu um equipamento especial para observar o movimento ocular das crianças quando viam televisão. Com ele, pela primeira vez, foi possível perceber como o rastreamento realizado pelos olhos era substituído pela varredura realizada pelos tubos catódicos. Assim, o olho parou – como quando admiramos o fogo – mas continuou a ver. O trabalho de percepção da forma foi transferido do movimento ocular para a tela da televisão, liberando os outros sentidos e, assim, criando uma espécie de hipnose.

Para McLuhan, na TV, o espectador é a tela. Ele é bombardeado por impulsos luminosos, com isso, a retina é estimulada e o olhar fica fixo na tela. Diferente do cinema onde a luz é projetada e boa parte dela é absorvida pela tela branca. A televisão é hipnótica e provoca um profundo envolvimento com a audiência. Isso acontece pelo fato de que quando o espectador está absorvido pela tela da televisão ela não ocupa mais do que a visão central. A visão central é sensível à cor e à textura, enquanto que a visão periférica é sensível ao movimento e à luz. Acaba-se por "enganar" as operações cerebrais fazendo com que numa pequena área da retina, no centro, também estejam presentes dados que seriam importantes para a visão periférica. Aqui, é igualmente interessante observar como, embora dominando essencialmente a região retineana central, a eficiência da televisão está na luz e no movimento. Quando o olho pára, diante de uma tela de televisão, todo o resto desaparece, exatamente porque o olho está parado e o que está a fazer o processo de movimentação para tornar possível a nossa percepção da forma é a estratégia dinâmica da própria imagem.

Assim, o alto grau de envolvimento da audiência frente à televisão de tubo é que norteia a linguagem televisiva e o conteúdo de sua programação. A experiência de Mackworth revelou que as crianças se atem nas reações e não nas ações. Nas cenas de violência os olhos não se desviam do rosto dos atores. Por isso, o close é tão importante na TV. Muitos acreditam que esta importância se deve apenas tamanho da tela.

Mas, com os aparelhos que não utilizam o TRC e a alta definição da imagem da TV Digital, é provavel que o envolvimento sensório do espectador seja profundamente alterado. A alta definição da imagem irá romper o processo hipnótico da imagem televisiva analógica. As telas de plasma possuem um gás que, ao passar por um processo de ionização, assume o estado de plasma. O plasma gera então raios ultravioleta que atingem a superfície externa da tela formando a imagem. Já as TVs de LCD têm uma lâmpada de luz branca (também chamada de backlight), cuja luminosidade é filtrada pelos cristais líquidos da tela. Com isso a luz não mais atravessa a tela e atinge a retina diretamente. Esses dois elementos atuam como uma projeção por trás da tela branca do cinema, ou seja, a tela da TV não serve como anteparo para formação da imagem e não há incidência de raios. Tanto o plasma, quanto o cristal líquido são energizados, com isso, a luminosidade que atinge o espectador é bem menor. Com as transmissões nas televisões digitais sendo de 1080 linhas e com a luz projetada, a textura da imagem, iluminação, a simulação de profundidade e perspectiva será bem próxima a que se tem hoje no cinema.

O alto índice de informação da imagem da TV Digital, permitirá ao espectador um menor envolvimento sensório para complementar a informação (oposto da TV analógica). Na TV Digital não é apenas um de seus sentidos que é prolongado, a imagem digital libera o olhar e estimula também outras percepções, assumindo, assim, o mesmo caráter contemplativo e passivo do cinema. Prova disto, é o estudo feito pela Eindhoven University of Technology, da Holanda, que identificou que para algumas pessoas, assistir TV Digital cansava os olhos. O estudo acabou por desenvolver a tecnologia Ambiligth.

Estas, são questões importantes que devem ser levadas em conta quando da realização de produtos em alta definição. Não basta se conscetrar na textura da imagem, no cenário e na iluminação. O modo como o espetador reage e se envolve com o dispositivo em sí, é deixado de lado por boa parte dos acadêmicos e profissionais de TV. Mas ainda a tempo.

Veja o comercial da Philips sobre o Ambiligth - Aqui!
 
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