quinta-feira, 15 de março de 2012

Crianças não assistem mais à televisão?

Recentemente a imprensa especializada divulgou a grade de programação das principais emissoras de televisão aberta de nosso país. Seria um fato comum se não uma decisão estratégia da maior emissora brasileira: a quase total extinção de conteúdo infantil na faixa da manhã de segunda a sexta-feira. As crianças não assistem mais à TV?

Perdendo audiência, a TV Globo trouxe para o horário um nome de peso: Fátima Bernardes, ex-âncora do Jornal Nacional e que ocupará ao lado de Ana Maria Braga a programação diurna semanal da emissora. Assim, a TV Globinho deixa a grade da emissora.

Nos anos de 80 e boa parte dos 90, as manhãs da TV Globo eram uma grande fonte de renda. A "rainha" Xuxa  reinava absoluta no horário com grandes faturamentos em anúncios e merchandising, certamente pelos pedidos insistentes das crianças a seus pais, para compra dos produtos anunciados durante o programa. Hoje é cada vez mais claro, que o comportamento da audiência está sendo alterado pela introdução dos computadores e novas opções de distribuição de conteúdo, como a TV paga. As crianças deixando de acompanhar a programação, consequentemente, na há venda de produtos. 

Entretanto, abandonar as crianças pode se mostrar um erro estratégico no futuro. Lembro-me do meu tempo de  pré-adolescente quando chegava da escola de manhã e a primeira coisa que fazia era ligar a televisão no canal da TV Globo. Naquela época, ainda sem TV paga e sem internet, não havia outra opção, desta forma, criava-se um hábito: ligar a TV na Globo. Confesso que o que mais me atraia eram as Paquitas e desenhos como He-Man e A Caverna do Dragão. Esta, aliás, é uma das várias razões do sucesso comercial da TV Globo. Sua grade fixa de programação contribuiu para que assistir à TV no canal da rede se transformasse em hábito por grande parte da audiência. Assim, como a emissoras espera resgatar esses telespectadores que foram deixados de lado, após as crianças se acostumarem a buscas divertimento em canais pagos ou na internet? Pesquisas apontam que crianças da classe A e B já consomem mais horas na internet do que frente aos televisores. 

Este perigo não é mera suposição. Ele de fato já ocorreu na Espanha. Lorenzo Vilchez, pesquisador de comunicação naquele país, aborda em seu livro A Migração Digital o caso espanhol, onde as principais emissoras de televisão abriram mão da programação infantil. Diz o pesquisador:

"O grande erro das televisões abertas foi abandonar os programas para crianças e jovens. Não souberam entender o potencial comercial que significava captar as futuras audiências por todo o tempo de sua vida como consumidores. Os jovens abandonaram a televisão, não só porque não havia programa para eles, mas também porque não houve nenhuma estratégia dirigida a captar clientes na mais tenra idade, otimizando assim o potencial dos conteúdos".

Discordo do autor em apenas uma questão: não acredito que as emissoras não saibam disso. O problema é que devido à lógica do modelo de negócios da TV aberta é praticamente impossível para elas sustentar um programa que não tenha retorno financeiro, mesmo que seja um projeto que vise ganhos em longo prazo.



Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1057699-globo-anuncia-nova-grade-de-programacao-para-2012.shtml

Lorenzo Vilchez. A migração Digital. Edições Loyola. 2003.


Foto: Portal Terra




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