domingo, 1 de julho de 2012

Contrastes, conflitos e adpatações do jornalismo online e offline*

Por:
Mayra Fernanda
Francisco Machado Filho

Desde 1995, o jornalismo brasileiro adentrou no universo online. O “Jornal do Brasil” estreou sua versão na web, o “JB Online”, em 28 de maio, e abriu um novo horizonte para a apuração, redação, edição e veiculação jornalística, articulados com as características que definem o meio digital, como a instantaneidade, a velocidade e a interatividade.

Durante esses 17 anos de história (se é que há uma história particular) desse jornalismo, observa-se um diálogo e um embate entre as práticas jornalísticas dos até então meios tradicionais de comunicação (impresso, rádio e televisão) com as potencialidades e adversidades trazidas pela Internet. É a partir dessa conjuntura que este artigo apresenta algumas reflexões sobre o fazer jornalístico no meio digital e sua relação conflituosa ou não com os demais meios.

Considerando o jornalismo como um exercício social de interesse público a fim de informar e formar os cidadãos sobre acontecimentos do dia a dia local, nacional e internacional, é fundamental retomar os preceitos que o levam a cumprir o objetivo acima. Conforme nos pontua Otto Groth (apud FIDALGO, aquivo digital), atualidade, periodicidade, universalidade e difusão perfazem a prática jornalística, e podemos afirmar que os veículos de comunicação lidam com tais caraterísticas desde a concepção até a veiculação dos seus produtos jornalísticos. No decorrer deste trabalho, apresentamos um paralelo entre esses preceitos e as práticas on e offline. Antes, porém, trazemos um breve panorama do jornalismo na Internet de modo a pontuar a conceituação que adotamos quando trabalhamos com esse tema, além de uma breve discussão sobre a produção e a organização das notícias nos veículos.

Com a popularização da web nos anos 90, proporcionando o acesso a informações de modo quase irrestrito e ilimitado aos usuários, o jornalismo, já feito em outros meios, vislumbrou nesse ambiente um novo espaço para a divulgação de notícias. Os primeiros passos foram dados pelos veículos impressos que construíram sites para disponibilizar seus conteúdos também no formato digital.

Essa primeira fase do jornalismo na Internet recebe o nome de fac-símile, uma vez que o jornal impresso era digitalizado e disponibilizado na íntegra para os leitores na nova plataforma. A partir do momento em que se reconhecem algumas características desse meio digital, surge a segunda fase do jornalismo na Internet, chamada de modelo online ou adaptado. Nessa fase, os jornais impressos disponilizavam seu conteúdo online em um layout próprio da web. Cabe ressaltar que as notícias eram as mesmas, no que se refere à linguagem e ao conteúdo.

Tal panorama começa a se alterar na terceira fase, a do jornalismo digital. Além de um layout próprio para o meio, a hipertextualidade, um espaço para comentários e uma seção para as últimas notícias ganham espaço nos sites que já nascem na web e também naqueles que estão vinculados aos meios de comunicação impresso e audiovisuais. Ao linkar informações complementares, os sites jornalísticos constroem uma arquietura da informação, baseada no hipertexto. O hipertexto é composto de nós de informações ligados por conexões, sendo que cada nó é um texto – podendo ser apenas uma palavra, uma página, imagens, gráficos ou sequências sonoras.

Hoje, a informação on-line ou no ciberespaço, em geral, compreende não apenas o ‘estoque’ desterritorializado de textos, de imagens e de sons habituais, mas igualmente pontos de vista hipertextuais sobre esse estoque, bases de conhecimentos com capacidades de inferência autônoma e modelos digitais disponíveis para todas as simulações.

A questão não é só o conteúdo

A questão do conteúdo no jornalismo online é realemente uma das principais questões a serem observadas na utilização desta mídia na divulgação de conteúdos jornalísticos, porém nesta nova ferramenta não é apenas o conteúdo e sua adaptação textual, semântica ou léxica ao novo meio, que irá possibilitar que a informação disponibilizada na rede alcance seus destinatários. É fundamental conhecer alguns processos, rotinas e o próprio funcionamento da rede, para compreender como a informação percorre cada “nó” desta grande teia, chamada Internet. Esta rotina de produção está diretamente ligada à aquitetura da informação.

Desta forma, produzir e disponibilizar um informaçao na rede não pode de forma alguma ter a mesma estrutura de um publicação do meio impresso ou audiovisual do sistema analógico de produção. Uma mudança fundamental na estrutura da notícia online, no que diz respeito ao texto, é o padrão de leitura que os usuários da rede seguem. Pesquisas divulgadas pelo sistema de busca mais utilizados no mundo, o Google, demonstram que o padrão de leitura online é diferente do padrão de leitura do meio impresso.

Uma das regras fundamentais do jornalismo impresso é a construção do texto baseado na ideia da pirâmide invertida. onde as informações são dispostas em um nível hierárquico do maior para o menor. Esta técnica prevalece até hoje e possui muitos adeptos de que esta forma de construção textual é a mais adequada para o jornalismo online. Contudo, o padrão de leitura na tela do computador não se dá na forma de uma pirâmide invertida, mas sim na letra “F”. Para cada resultado de pesquisas realizadas no buscador, o Google identificou que as três primeiras linhas alcançam os maiores indices de cliques. Caso o resultado não seja satisfatorio para o usuário ele desce a página passando por alguns links e novamente o índice de cliques aumenta nas linhas posteriores formando o “F”. Este padrão não se configura apenas nos resultados das buscas. Em diversas páginas de notícias já é possível ver esse padrão. No topo da notícia o lead continua o mesmo, mas antes que do outro parágrafo no texto, os principais sites de notítica divulgam links de relavância para o usuário. Desta forma, espera-se que, caso o leitor não se interesse pelo conteúdo restante, permaneça no site lendo outra notícia ou complemento da anterior.

Outro ponto importante na formatação da notícia o jornalismo online está diretamente ligado ao título do texto. Na escola tradicional do jornalismo aprendemos que a manchete de uma notícia deve ser construida de forma a aguçar a curiosidade do leitor e levá-lo à leitura do texto. No jornalismo online essa lógica não funciona, pois devido aos mecanismos de buscas e a pequenos códigos chamados “cookies” a relevância da manchete (título) não está diretamento ligada ao grau de curiosidade que pode gerar, mas sim, na maior possibilidade de utilização dos mesmos termos de busca e no título da matéria. Ou seja, para que uma informação aparece nas primeiras páginas do buscador Google ou para os cookies levem até o usuário notícias relevantes, quanto mais coincidirem os termos de pesquisa e o título da matéria, mais destaque a notícia receberá. Exempo: se um usuário digita no buscador, “corrupção no senado” as matérias que contiverem esses termos no título da matéria serão as primeiras a aparecerem no resultado da busca.

A arquitetura da informação não abrange apenas esses tópicos. Questões de navegabilidade e usabilidade, devem sempre vir diretamente ligadas ao conteúdo. O entendimento de que a informação na rede e, propriamente falando do jornalismo online, não podem ser apenas focadas no conteúdo é o primeiro passo para produção de conteúdo informativo de relevância para o usuário.

*Parte do texto apresentado no Intercom Sudeste em Ouro Preto/MG

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