terça-feira, 2 de março de 2010

O fim do tubo de raios catódicos

Disco de vinil, fitas K7, disquete 3.5, são exemplos de alguns dispositivos tecnológicos que se tornaram obsoletos e hoje não justificam mais sua produção em escala industrial. Com a popularização da TV Digital e a comercialização de televisores LCD, Plasma e no sistema 3D, outro dispositivo tecnológico deverá ser aposentado: o tudo de raios catódicos nos aparelhos de televisão.

O tudo de raios catódicos catódicos consiste em um tubo a vácuo que quando energizado, produz um feixe de elétrons que ao atingir a tela do aparelho de TV, revestida de fósforo, forma a imagem. A quantidade de luz emitida é tão alta que parte dela atravessa a tela atingindo as pessoas frente ao aparelho. A aposentadoria do TRC não é apenas a substituição de um dispositivo por outro mais eficiente, ela altera profundamente os apectos psíquicos do ato de ver TV. Esta hipótese se baseia nas teorias de Marshall McLuhan apresentadas em seu livro, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. Editora Cultrix, 1996.

Suas idéias sobre a televisão e sua capacidade de alterar nossos padrões pisíquicos causam controvérsia ainda hoje. McLuhan afirma que desde o aparecimento da TV as crianças passaram a ler a apenas 15 centímetros de distância dos livros. Desta forma, procuram obter o mesmo grau de envolvimento que o aparelho de televisão proporciona.

No início dos anos 60 Alan Mackworth desenvolveu um equipamento especial para observar o movimento ocular das crianças quando viam televisão. Com ele, pela primeira vez, foi possível perceber como o rastreamento realizado pelos olhos era substituído pela varredura realizada pelos tubos catódicos. Assim, o olho parou – como quando admiramos o fogo – mas continuou a ver. O trabalho de percepção da forma foi transferido do movimento ocular para a tela da televisão, liberando os outros sentidos e, assim, criando uma espécie de hipnose.

Para McLuhan, na TV, o espectador é a tela. Ele é bombardeado por impulsos luminosos, com isso, a retina é estimulada e o olhar fica fixo na tela. Diferente do cinema onde a luz é projetada e boa parte dela é absorvida pela tela branca. A televisão é hipnótica e provoca um profundo envolvimento com a audiência. Isso acontece pelo fato de que quando o espectador está absorvido pela tela da televisão ela não ocupa mais do que a visão central. A visão central é sensível à cor e à textura, enquanto que a visão periférica é sensível ao movimento e à luz. Acaba-se por "enganar" as operações cerebrais fazendo com que numa pequena área da retina, no centro, também estejam presentes dados que seriam importantes para a visão periférica. Aqui, é igualmente interessante observar como, embora dominando essencialmente a região retineana central, a eficiência da televisão está na luz e no movimento. Quando o olho pára, diante de uma tela de televisão, todo o resto desaparece, exatamente porque o olho está parado e o que está a fazer o processo de movimentação para tornar possível a nossa percepção da forma é a estratégia dinâmica da própria imagem.

Assim, o alto grau de envolvimento da audiência frente à televisão de tubo é que norteia a linguagem televisiva e o conteúdo de sua programação. A experiência de Mackworth revelou que as crianças se atem nas reações e não nas ações. Nas cenas de violência os olhos não se desviam do rosto dos atores. Por isso, o close é tão importante na TV. Muitos acreditam que esta importância se deve apenas tamanho da tela.

Mas, com os aparelhos que não utilizam o TRC e a alta definição da imagem da TV Digital, é provavel que o envolvimento sensório do espectador seja profundamente alterado. A alta definição da imagem irá romper o processo hipnótico da imagem televisiva analógica. As telas de plasma possuem um gás que, ao passar por um processo de ionização, assume o estado de plasma. O plasma gera então raios ultravioleta que atingem a superfície externa da tela formando a imagem. Já as TVs de LCD têm uma lâmpada de luz branca (também chamada de backlight), cuja luminosidade é filtrada pelos cristais líquidos da tela. Com isso a luz não mais atravessa a tela e atinge a retina diretamente. Esses dois elementos atuam como uma projeção por trás da tela branca do cinema, ou seja, a tela da TV não serve como anteparo para formação da imagem e não há incidência de raios. Tanto o plasma, quanto o cristal líquido são energizados, com isso, a luminosidade que atinge o espectador é bem menor. Com as transmissões nas televisões digitais sendo de 1080 linhas e com a luz projetada, a textura da imagem, iluminação, a simulação de profundidade e perspectiva será bem próxima a que se tem hoje no cinema.

O alto índice de informação da imagem da TV Digital, permitirá ao espectador um menor envolvimento sensório para complementar a informação (oposto da TV analógica). Na TV Digital não é apenas um de seus sentidos que é prolongado, a imagem digital libera o olhar e estimula também outras percepções, assumindo, assim, o mesmo caráter contemplativo e passivo do cinema. Prova disto, é o estudo feito pela Eindhoven University of Technology, da Holanda, que identificou que para algumas pessoas, assistir TV Digital cansava os olhos. O estudo acabou por desenvolver a tecnologia Ambiligth.

Estas, são questões importantes que devem ser levadas em conta quando da realização de produtos em alta definição. Não basta se conscetrar na textura da imagem, no cenário e na iluminação. O modo como o espetador reage e se envolve com o dispositivo em sí, é deixado de lado por boa parte dos acadêmicos e profissionais de TV. Mas ainda a tempo.

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