domingo, 20 de março de 2011

As transformações nos veículos de comunicação de massa - Parte II

No início da análise sobre as transformações pelas quais estão passando os veículos de comunicação de massa (clique aqui para ler) afirmei que o principal problema está relacionado à distribuição dos conteúdos e das mensagens publicitárias. A razão disso é que a sociedade está mudando e os veículos de mídia tradicionais, principalmente a televisão, atendiam aos propósitos de uma sociedade industrial, de massa, voltada para o consumo e prestação de serviços. Mas, no final dos anos de 70 e início dos 80, a economia mundial começou a experimentar a transferência dos investimentos financeiros da produção industrial para os mercados de capital, o que provocou uma desmassificação da sociedade, conforme afirma Alvin Toffler.

Isso quer dizer, que ao invés dos lucros gerados pelos investimentos na produção de bens e materiais (o que gera emprego em fábricas e postos de trabalho), os lucros passaram a vir dos investimentos no mercado financeiro (que acaba com milhares de empregos). Desta forma, a sociedade foi deixando ao poucos a sociedade industrial para dar lugar à sociedade da informação, onde a flexibilidade e a inovação passaram a ser as regras dessa nova fase. As empresas foram obrigadas a se adaptarem às mudanças, bem como os trabalhadores, investindo mais em qualificação (estudos). Como resultado, o papel das empresas mudou, bem como o do homem e da mulher. Aquela figura clássica da família dos anos 50 e 60, reunida em torno da televisão após a chegada do chefe da família de um longo dia de trabalho na fábrica está longe de representar a configuração da família atual nos grandes centros econômicos.

O caso americano é um bom exemplo para configurarmos como esta transformação da economia se tornou um desafio para as emissoras de televisão e demais veículos de comunicação de massa. Enquanto no Brasil o processo de industrialização se deu a partir da Segunda Grande Guerra, nos EUA o processo se iniciou ainda no século XIX e dentro desse período os EUA se tornaram o país mais industrializado do mundo. Ao final da Segunda Guerra, os americanos se tornaram a maior economia do planeta, sendo responsável pela fabricação de 80% dos automóveis em todo mundo e, também, o maior produtor de petróleo. Com a destruição da capacidade industrial na Europa e Japão, os EUA exportavam para os países envolvidos no conflito uma infinidade de produtos e materiais utilizados na reconstrução das cidades destruídas pela guerra. Durante mais de 40 anos, os EUA prosperaram e enriqueceram. Porém, a partir dos anos de 80, a administração Ronald Reagan iniciou um processo de desregulamentação do mercado financeiro dos EUA e ficou muito mais atrativo investir no mercado de ações do que fabricar produtos. Esta desregulamentação continuou no governo Clinton, acentuou no governo Bush filho e continua no governo de Barack Obama, permitindo ao mercado financeiro investimentos em derivativos e opções subprime de forma descontrolada, o que acabou por provocar a maior crise do capitalismo desde a crise de 29, em 2009.

Paralelo à desregulamentação do mercado financeiro, a queda do Muro de Berlin, em 1989, permitiu que empresas do Ocidente se instalassem em países da Ásia, tornando empresas americanas em off-shore, onde uma empresa deixa seu país e se instala em um outro país, produzindo seus produtos com mão-de-obra e matéria-prima local, quase sempre pagando salários muito inferiores do que seriam pagos no país de origem.

Desta forma, a televisão, que nos áureos tempos da sociedade industrial entretia e informava quase a totalidade das famílias americanas com sua programação repleta de anunciantes, vê agora o desenvolvimento de novas mídias que atendem a essa nova classe de trabalhadores, mais qualificados ( e mais exigentes), com horário de trabalho flexível e desenvolvendo novos papais na sociedade, de uma forma muito mais eficaz do que a televisão atual. E o mercado publicitário está percebendo esta mudança e segue o consumidor seja em qual mídia for. Nos EUA, a internet já atrai mais anunciantes do que os jornais impressos ficando atrás apenas da televisão e das revistas.

Isso também está acontecendo aqui no Brasil, mas com uma diferença: a estabilidade econômica e o desenvolvimento da capacidade industrial brasileira estão proporcionando bons índices de emprego e renda, permitindo às famílias investirem em novas plataformas de distribuição de conteúdo, seja a internet banda larga ou a TV por assinatura.

Como a indústria televisiva, que nasceu e foi estruturada para atender as demandas de uma sociedade de massa pode lidar com este novo cenário altamente competitivo de novas mídias, sendo que o indivíduo já não assiste à TV da mesma forma?

Este é o grande desafio das emissoras de televisão atualmente.

3 comentários:

Danilo Egle disse...

gostei muito deste texto professor!!

Vitor Sendra disse...

Venho acompanhando seus textos e concordo com suas análises sobre os desafios do mercado publicitário na autalidade.
Acredito que a única emissora de televisão no Brasil que utilize três plataforas de distribuição de conteúdo seja o Esporte Interativo. Apesar de não ter toda seu conteúdo transmitido nas tres plataformas que utiliza, tv aberta (via parabólica e UHF), internet e telefona móvel a emissora, creio eu, é a pioneira no Brasil.
Esse pioneirismo ainda não deu resultados junto às agências de publicidade visto a pequena concentração de anunciantes do canal.
É bom ficar atento ao desenvolvimento da emissora.

Vitor Sendra disse...

deculpe os erros do texto, digitar em pequenos teclados não é meu forte... fique somente com o conceito e a mensagem.