sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Em guerra com telefônicas, Globo admite regionalizar programação

Texto publicado em: Blog Daniel Castro

Há uma guerra no ar.

Redes de televisão e companhias telefônicas estão travando uma disputa nos bastidores dos gabinetes de Brasília. As teles querem tirar canais reservados para a televisão aberta para ofertarem mais telefonia móvel (celular). Para não ceder canais às telefônicas, a Globo já fala até em aumentar a regionalização da programação, um assunto que sempre provocou urticária nos executivos da emissora.

As teles reivindicam do governo federal as frequências (canais) que ficarão ociosas após 2016, quando está previsto o término da transição da TV analógica para a TV digital, também chamado de "apagão analógico" e "switch off".

Por exemplo: hoje, em São Paulo, a Record transmite no canal 7 (sinal analógico) e no canal 19 (digital). Quando a TV analógica estiver totalmente ultrapassada, em tese a Record terá de devolver ao governo o canal 7, assim como a Globo terá de devolver o canal 5 de São Paulo e o SBT, o 4. As telefônicas querem esses canais para usar na telefonia móvel.

As emissoras de TV (todas) não querem ceder espaço hoje dedicado à radiodifusão para as telecomunicações (telefonia). Argumentam que precisarão de maior espaço eletromagnético (frequências/canais) para oferecer novas tecnologias, como a super-high definition (TV de definição muito superior à atual alta definição) e o 3D integral.

O assunto dominou discussões na Broadcast & Cable 2011, feira de engenharia de televisão que encerrou ontem em São Paulo.

Em um seminário anteontem (quarta, 24), Fernando Bittencourt, diretor da Central Globo de Comunicação, defendeu pela primeira vez a regionalização da programação da TV.

Segundo ele, os canais que ficarão disponíveis após o apagão analógico "permitirão a regionalização da TV". Ele defendeu que os canais hoje analógicos sejam transformados em digitais e concedidos a afiliadas das redes, que passariam a produzir conteúdo local.

Assim, hipoteticamente, o canal 5 de São Paulo poderia se transformar em uma afiliada da Globo no ABC, que passaria a irradiar telejornais focados na região.

"Ter programação local significa ter cultura local, jornalismo local, publicidade local", afirmou Bittencourt. "O Brasil tem 5.500 municípios, mas só 235 tem geradoras de TV e produzem programação local. É muito pouco 235 geradoras para 5.500 municípios", argumentou.

O discurso da Globo tem um forte apelo político. Os próprios políticos seriam beneficiados com a transformação de canais analógicos em digitais, porque mais municípios teriam propaganda eleitoral gratuita.

A fala da Globo pró-regionalização da programação de TV soa um tanto estranho. É a rede que menos programação local permite às suas afiliadas, e, mesmo assim, impõe um padrão nacional de qualidade. A programação regional nas afiliadas da Globo se limitam a três telejornais locais e a algumas faixas de horário aos sábados, domingos e finais de noite.

Dividendo Digital

A entrega de canais hoje ocupados pelas redes de TV às telefônicas ganhou um termo pomposo: "dividendo digital". Em um outro seminário na Broadcast & Cable, Leila Loria, diretora da área de regulamentação da Telefônica, defendeu a ocupação dos canais de TV analógicos pelo serviço de telefonia móvel. "É o serviço móvel que irá alavancar a banda larga", defendeu Leila.

Segundo a executiva, os canais de TV analógicos quando ocupados pela telefonia (como ocorre em outros países) "trazem mais benefícios ao país".

Consultor da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Paulo Ricardo Balduíno combateu o dividendo digital. "Antes de falar em dividendo digital no Brasil, precisamos fazer a transição para a TV digital e discutir o futuro da televisão digital. Temos de garantir espectro para a televisão aberta", afirmou.

Segundo Balduíno, as telefônicas estão reclamando de barriga cheia. A telefonia móvel no Brasil ocuparia 200 megahertz a mais de banda do que a telefonia móvel dos Estados Unidos.

Apesar de as teles terem faturamento quase 10 vezes superior aos das redes de TV, a radiodifusão tem mais força política. As TVs venceram a disputa com as teles em torno do sistema de TV digital, em 2006.

A julgar pelo discurso de membros do governo, as redes de TV estão levando vantagem na luta pela preservação dos canais analógicos. "A TV aberta acerta na programação, faz o que a população quer. E faz com qualidade, porque exporta para diversos países. Essa discussão [da entrega dos atuais canais analógicos para as teles] está em aberto. Não faz sentido fixar datas, como querem alguns", disse na Broadcast & Cable André Barbosa, assessora da Casa Civil da Presidência da República.

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