sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Porque não posso assistir meu DVD pirata fumando meu baseado?

“Porque é crime, oras!”, dirão alguns. Mas, por que mesmo sendo uma contravenção, a indústria da pirataria e do tráfico cresce a cada dia?

Há quem diga: “Porque os DVD’s são caros demais para uma população que mal tem dinheiro para as necessidades básicas, e também porque a maconha é uma droga leve e deve ser liberada assim como o álcool. E se beber pode, por que fumar não pode”?

Na verdade, não é intenção deste artigo discutir a real motivação dessas pessoas. O que nos interessa aqui é o resultado desta ação. Assistir a um filme pirata ou fumar um baseado é ao mesmo tempo início e fim de uma cadeia de acontecimentos que acaba por gerar um círculo vicioso onde a violência e a corrupção geram uma conjuntura de mal-estar social, subvertendo a ordem social.

A situação no Rio de Janeiro é caso de guerrilha. Estamos nos acostumando a ver ações policiais do mesmo modo que vimos ações do exército americano no Iraque. Matéria exibida pelo Jornal Nacional no dia 17 de outubro mostra uma ação da polícia perseguindo traficantes. Os acusados tentam se esconder em um matagal enquanto policiais abrem fogo. Os traficantes tentam escapar das balas, que levantam poeira perto de seus pés, até que caem no mato e acabam mortos. Tudo ali, sendo gravado por câmeras amadoras e profissionais. É como se estivéssemos vendo um vídeo-game ou filme. Mas era tudo real.

Por trás desse caos urbano, más ações de governos e de uma parcela da elite social que financia o tráfico de drogas fazem surgir a necessidade de instrumentos que tentam coibir a violência se utilizando mais violência. É o caso do BOPE – Batalhão de Operações Especiais – da polícia do Rio. O filme Tropa de Elite, de José Padilha, aborda esta intrínseca relação entre traficantes e consumidores de drogas. E talvez, por pura ironia, este seja o filme mais pirateado do cinema nacional. Antes mesmo da exibição nos cinemas, o filme já era vendido por camelôs de todo o país.

Assim como o tráfico, a indústria da pirataria movimenta milhões de reais. De acordo com o site da BBC Brasil, o Brasil é o quarto colocado com pior índice de combate à pirataria no mundo. “O estudo classificou os países considerando dois fatores: a falta de vontade governamental de cumprir suas obrigações internacionais e a ausência de empenho da mídia para conscientizar a população. Nos países mal classificados, o levantamento considerou que a opinião pública possui uma visão desfavorável sobre a proteção da propriedade intelectual, o que dificulta a fiscalização. Já em países como Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha e França (os mais bem classificados), tanto a mídia quanto o público colaboram no combate à falsificação”.

Este é o ponto chave deste artigo. Após a exibição do filme, muitas pessoas saem horrorizadas com as ações do BOPE. Outras se mostram a favor da polícia e chegam a aplaudir os policiais nas cenas de tortura. E assim, como espectadores, não conseguimos compreender nossa parcela de culpa nessa desordem. Por trás de cada baseado ou de cada filme pirateado, há um comprador. E para que esse filme ou cigarro chegue a suas mãos, policiais foram corrompidos ou mortos, crianças serviram de “avião”, “vapor” ou “soldado”, comunidades inteiras vivem sob o medo e ordem de bandidos e milícias, policiais utilizam cada vez mais atos repressores na tentativa de conter a violência e a bandidagem.

Se esse não é um bom motivo para fazer você pensar duas vezes antes de comprar um filme pirata ou fumar seu baseado, este mundo está mesmo perdido.

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