segunda-feira, 28 de junho de 2010

O CQC e o jornalismo brasileiro

O fluxo e o contra-fluxo constante de informações que circulam na internet estão desmascarando o jornalismo praticado no Brasil. A blogosfera está repleta de jornalistas, profissionais ou não, que nos oferecem uma fonte alternativa para formação de nossa opinião a cerca dos problemas sociais, políticos e econômicos de nosso país.

Com isso, é possível perceber o quanto o jornalismo praticado aqui é comprometido com interesses que vão além das normas estabelecidas para a prática de um jornalismo isento e imparcial. Prova disto é a percepção que o cidadão tem das notícias veiculadas nos orgãos de imprensa. Pesquisa encomendada pelo Governo aponta que 57,3 % da população acreditam que as notícias veiculadas são tendenciosas. E isto não é por acaso. Declarações como a de presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Maria Judith Brito, admitiu que a imprensa no Brasil atua como um Partido de Oposição:

“A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo [Lula]”.

Esta é função do jornalismo? Tomar partido? Onde mora a imparcialidade, a isenção, a credibilidade? No interesse dos donos dos jornais? No bolso do patrocinador? É grave uma declaração como esta, pois coloca em cheque os valores democráticos do país. Não existe país livre e democrático sem imprensa também livre, mas isenta. Soma-se a isto, uma espetacularização da notícia, principalmente nos telejornais, o que alguns chamam de “dramalhismo” e não jornalismo.

Então, eis que surge na nossa televisão um programa que mistura a informação jornalística com o mais puro humor sarcástico, moleque e irreverente. O programa CQC (Custe o Que Custar) exibido às segundas-feiras pela TV Bandeirantes pode ser entendido por grande parte da população como o jornalismo mais independente praticado hoje no Brasil e por razões simples: trata de assuntos que a grande mídia não trata e faz as perguntas que muitos gostariam de fazer, principalmente aos políticos. Porém, infelizmente, talvez por herança deste mau jornalismo praticado pela grande imprensa, o programa peque em dois quesitos, que a meu ver, contribuem para o distanciamento entre jornalismo profissional e o cidadão.

Primeiro, o quadro “Proteste Já”. Um dos integrantes do programa atende a reclamações de telespectadores e procura responsáveis por problemas que afligem comunidades ou pessoas comuns. O intrépido repórter vai fundo na procura dos responsáveis pelo problema em questão, que em muitos casos, é o prefeito. Até aí, tudo bem. Esta é a essência do jornalismo, externar um problema e apontar responsáveis. Porém, a atuação do repórter não para por aí. Ele exige que o problema seja resolvido e estipula um prazo para que isso ocorra. Esta não é uma função do jornalismo, quem estipula prazo para que ações sejam praticadas é o Ministério Público. Ao exigir que uma ação seja executada pelo executivo municipal, o programa impõe uma agenda a ser cumprida em detrimento de outra previamente estabelecida. Um programa de TV não pode, em hipótese alguma, impor uma agenda, caso contrário, atuará da mesma forma como a citada por Judith Brito.

O segundo é o quadro em que o repórter do programa percorre os corredores do Congresso Nacional entrevistando nossos parlamentares sobre diversos assuntos. O problema é que, no geral, as entrevistas se resumem a “pegadinhas” que tem como único objetivo ridicularizar os congressistas e nos fazer rir. Perde-se aqui, uma grande oportunidade de realmente se fazer um jornalismo inovador, ou seja, tratar de questões importantes para o país com uma forte inclinação para o humor, alcançando assim, a população mais jovem que assiste ao programa. Simplesmente ridicularizar o Congresso Nacional, muitas vezes, leva ao descrédito com o sistema, ou seja, gera o desinteresse do jovem telespectador nas questões políticas do país e no comparecimento consciente às urnas em qualquer pleito eleitoral.

Entretanto, de qualquer forma, o sucesso do programa mostra que a população anseia por um jornalismo independente, ácido e isento de interesses (se é que isto realmente exista). Quem sabe, em pouco tempo, os diretores do CQC não enxerguem a grande oportunidade que o programa tem de aproximar o cidadão e o jornalismo. O primeiro passo poderia ser dado na reformulação do cenário do programa. O público fica muito distante dos apresentadores. Seria ótimo se a platéia pudesse ficar sentada ao lado dos apresentadores, bem próxima a bancada. Seria um sinal de que quanto mais próximo a população estiver dos jornalistas e dos veículos de imprensa, melhor para a Democracia.

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