sábado, 3 de julho de 2010

Jornal do futuro ou jornal sem futuro?

Texto publicado em: Coluna de Ethevaldo Siqueira para o Estadão

02 de julho de 2010 | 22h24

Por::
Ethevaldo Siqueira

As novas gerações quase não lêem jornais. A tiragem mundial dos periódicos vem caindo continuamente há mais de 20 anos. É possível que, antes de 2030, a maioria dos jornais já tenha migrado para a internet. No futuro, toda informação tende a ser eletrônica ou virtual. O período de transição, que já começamos a viver, deverá ser conturbado sob todos os aspectos.

Essas foram algumas das conclusões que publiquei há dois anos após um debate de que participei com um grupo de cinco jornalistas, profissionais especializados em comunicações e tecnologias digitais – durante o NAB Show, em Las Vegas. Vale a pena rever o assunto e submetê-lo aos internautas deste blog. Em geral, a mídia não discute seus problemas nem seu futuro. Não vejo problemas em fazê-lo aqui.

Vi em um grande diário norte-americano, um gráfico imenso na parede da redação mostrando a queda contínua da circulação dos jornais no mundo, nos últimos 20 anos, com uma projeção da curva descendente que chega ao zero por volta de abril de 2043. Ou seja: nessa data a circulação dos jornais impressos chegará a zero. Sobre o gráfico, uma frase declara de modo categórico: “O jornal está morrendo”. No rodapé do quadro, os jornalistas escreveram: “Mas o jornalismo, não”.

No debate que tenho mantido via internet com os mesmos jornalistas que pensam o futuro da mídia, estamos chegando ao consenso de que o jornal impresso deverá passar por transformações profundas nos próximos 20 ou 30 anos. A pergunta crucial que ninguém consegue responder e que é conhecida de todos os meus colegas: como competir no futuro com a internet, o rádio e a TV, que hoje mesmo já fazem jornalismo eletrônico noticioso em tempo real? A não ser que o jornal impresso do futuro deixe de ser um veículo de notícias, como hoje o conhecemos e mude radicalmente suas funções.

Publicações de nicho

É provável, portanto, que o jornal, como o conhecemos, tende a desaparecer antes de 2030. O maior desafio à sua sobrevivência talvez esteja em seu modelo industrial, ainda dependente da impressão e de uma logística complicada de distribuição domiciliar de centenas de milhares de exemplares aos assinantes ou às bancas. E o mais grave é que esse modelo industrial tem pouca flexibilidade para competir com o jornalismo eletrônico.

Os teóricos e otimistas dizem que o jornal sobreviverá porque poderá optar pela mudança seu enfoque e de conteúdo, podendo transformar-se em publicação de nicho, voltada para públicos específicos, com predominância de matérias e artigos de análise, de opinião, de reflexão, de debate de tendências, de teses mais especializadas. Eu mesmo leria com prazer um jornal de análise econômica. Ou de comportamento da juventude. Ou de debates sobre música. E acho que milhares de pessoas teriam prazer em ler publicações periódicas que debatam seus temas e segmentos preferidos – e que poderão ser tratados pelo jornal de 2030.

O desafio da tecnologia

Algumas mudanças tecnológicas podem postergar o fim dos jornais impressos. Assim, por volta de 2015 ou 2020, os maiores jornais do mundo talvez poderão ter optado pelo formato totalmente virtual – como já sinaliza o jornalismo da internet.

Outros jornais poderão ser impressos na casa do assinante com a tecnologia do papel eletrônico. O leitor selecionará exatamente o que mais lhe interessa para imprimir de forma eletrônica, podendo depois armazenar tudo digitalmente ou apagar pura e simplesmente os textos já lidos e imagens já vistas.

Muitos perguntarão: mas que é papel eletrônico? De modo simplificado podemos definir papel eletrônico ou tinta eletrônica como tecnologias que buscar imitar o papel convencional com uma impressão eletrônica de textos e imagens, que podem ser apagadas ou alteradas a qualquer momento sem necessidade de se consumir mais papel. Em inglês são utilizadas as expressões electronic papel (e-paper) ou electronic ink (e-ink).

O desafio da velocidade

Por sua natureza industrial, o jornal impresso de hoje não pode competir, em velocidade, com a informação eletrônica e virtual, do rádio, da TV, das novas redes sem fio e, em especial, da internet. Nem haveria sentido em repetir, no dia seguinte, tudo que o cidadão já ouviu no rádio, viu na TV e leu na internet. O espaço em que jornal continua imbatível é o da análise e da interpretação competente dos fatos, de suas causas e conseqüências.

Ao longo do século 20, o jornal sobreviveu mesmo com a chegada de dois grandes concorrentes: o rádio e a televisão. O terceiro e maior desafio, no entanto, veio nos anos 1990, com a internet, que representa ao mesmo tempo uma forte ameaça e uma incrível oportunidade para os jornais.

Vale lembrar, também, que o rádio não matou o jornal. Nem a TV matou o rádio. Não tenho tanta certeza em afirmar que o jornal – como o conhecemos – sobreviverá à a internet. A não ser que faça profundas reformulações, em seu conteúdo, no enfoque de seus textos, no seu modelo industrial e, em especial, em seu modelo de negócios.

O jornal de 2025

Que reformulações serão essas? Por volta de 2025, o jornal virtual do futuro deverá ter consolidado sete mudanças fundamentais:

1) passar de produto físico a virtual;

2) evoluir de conteúdo predominante noticioso para o de análises, reflexões e discussões de grandes temas de interesse geral;

3) concentrar-se mais na defesa de valores éticos e sociais do que de posições político-ideológicas;

4) elevar sempre os padrões de qualidade de todos os conteúdos e de credibilidade das informações;

5) evoluir do modelo de negócio baseado na publicidade tradicional, para um novo tipo de publicidade, mais próximo do estilo do Google;

6) estimular ao máximo a participação colaborativa do leitor, tanto do cidadão comum como, em particular, de especialistas de alto nível, como na Wikipédia;

7) estar disponível, de forma ubíqua, em qualquer computador, laptop, celular, iPod, iPad, tweeter, e outros dispositivos portáteis.

Convergência total

Do ponto de vista tecnológico, todos os meios de comunicação convergem: jornal, revista, rádio, TV, podcast, blog ou a internet. Conseqüentemente, não há mais sentido em tratá-los como se fossem segmentos autônomos, estanques ou separados.

Essa convergência ou fusão de mídias decorre inexoravelmente do processo de digitalização, que reduz tudo a bits. Nas tecnologias digitais voz, sons, dados, textos, imagens e vídeo – tudo é representado por bits. A esse processo de digitalização se soma uma outra tendência decorrente da própria internet: todas as formas de comunicação já adotam o protocolo IP da internet. Por outras palavras, nos últimos 20 anos o mundo se transformou numa plataforma IP.

Janela para o mundo

Graças a essa convergência, mesmo num país emergente como Brasil, fazemos hoje coisas que eram simplesmente impensáveis em 1990, como acessar, a qualquer instante, de nosso desktop ou laptop, os maiores jornais ou revistas do Brasil e do mundo, emissoras de rádio ou de TV, bancos de dados, enciclopédias, sites de universidades, das maiores e das menores empresas ou do Vaticano.

E, com a mobilidade do celular e de outras redes sem fio, já começamos a dispor desse jornalismo eletrônico nascente, que nos traz informação, opiniões e entretenimento anytime, anywhere. Como negar a realidade e o impacto da convergência de mídias?

O maior desafio desse novo jornalismo virtual e eletrônico parece estar na participação e na interação entre a nova mídia e seu novo público. No conceito do futurólogo e visionário Alvir Toffler, vivemos a era dos prossumers, cidadãos que são produtores e consumidores ao mesmo tempo. Um bom exemplo são os “repórteres virtuais”.

O problema é o despreparo da maioria desses prossumers. Sua contribuição, até aqui, não é das melhores. Nossa maior frustração – tanto de jornalistas quanto de leitores –é perceber que a elevada a interatividade deste jornal do futuro muitas vezes se transforma um retrocesso.

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