sexta-feira, 9 de julho de 2010

Por que não assisto mais a TV Globo?

Porque não preciso mais. Sinceramente, gostaria de poder afirmar aqui que esta ação está ligada a uma conduta ideológica partidária, ou uma reação à cobertura parcial que a emissora faz das eleições ou do governo atual, ou ainda, pela baixa qualidade da programação, dentre outros. Mas não é verdade, esses características marcam a TV Globo, acredito que desde o início de história e eu continuei assistindo. Entretanto, atualmente, eu não preciso mais. A tecnologia está permitindo que eu busque informação e entretenimento de melhor qualidade suprindo totalmente meu consumo de TV.

E isto não é pouca coisa, pois o status de campeã de audiência da TV Globo não foi alcançado apenas pelo seu “Padrão Globo” de se fazer TV. Desde apoio ao regime militar até legislação específica forjada no Congresso Nacional, garantiram por muito tempo, o primeiro lugar à emissora em uma concorrência, muitas vezes, desleal com as outras emissoras de TV.

Em 1964, o Brasil possuía 34 estações de TV que operavam independentemente. Neste ano, os militares brasileiros deflagram um golpe e assumiram o controle da Nação. A partir daí, as políticas de comunicação no país sofreram mudanças drásticas. Nos anos seguintes, foi criada a Embratel (1965), o Ministério das Comunicações (1967), o Decreto que proibia, taxativamente, as TVs públicas de exibir qualquer outra coisa que não fosse aula à distância (1967), a criação da Aerp – Assessoria Especial de Relações Públicas – que passa a controlar a propaganda política do governo militar (1968), a cassação da TV Excelsior em 1970, por críticas ao governo e, por fim, em dezembro de 1972, foi baixado o Decreto que regulamenta a formação de rede, através do Prontel – Programa Nacional de Telecomunicações. (1)

Nas décadas de 70 e 80 o governo militar se tornou o maior anunciante individual no Brasil, e boa parte desta verba publicitária era destinada à TV Globo. Com dinheiro em caixa, a profissionalização da emissora, investimentos em tecnologia, dramaturgia e qualidade técnica elevaram a TV Globo à liderança do mercado televisivo, posição que ocupa até hoje. Em 1986, o capítulo final da novela Roque Santeiro, teve 100% dos televisores sintonizados na TV Globo. Marca nunca mais alcançada. Essas e outras situações marcaram definitivamente o mercado de TV no Brasil. Em nenhum outro lugar no mundo, uma única emissora de TV possui índices tão altos de audiência. E como vimos isto não se deu apenas pela qualidade técnica e profissional.

Contudo, o reinado da “Vênus Platinada” vem sendo ameaçado duramente. Entraram no jogo as empresas de telecomunicações. Gigantes multinacionais com maior poder de lobby e muito mais dinheiro. Em 2006, o faturamento da Telefónica foi de US$ 69.760 bilhões, enquanto Rede Globo faturou US$ 2.923 Bilhões. (2) Ainda entra nesta briga o Google, Yahoo, Microsoft, que não atuam diretamente na transmissão aberta de conteúdo no país, mas disponibilizam entretenimento e informação via Internet tirando audiência das emissoras. Certamente, podemos afirmar, que pela primeira vez a TV Globo está enfrentando adversários poderosos. É briga de cachorro grande.

Enquanto isso, nós espectadores e usuários vamos sendo ofertados com novas e tentadoras oportunidades: TV a Cabo, TV por Satélite, IPTV (TV via internet), Web TV, Broadband TV, TV portátil, TV Digital, etc. Mas, é preciso cautela. Apesar do momento de euforia, por ver a posição da TV Globo ser posta em cheque (não é bom para nenhum regime Democrático que apenas uma emissora de TV possua índices tão alto de audiência), não podemos nos iludir de que este poder está se deslocando para outras mãos.

A informação sempre será controlada por aquelas que a produzem. Mas, hoje, está mais difícil manter este controle. Exemplos como o “Cala a Boca Galvão”, “Cala a Boca Tadeu Schimit”, dão voz a milhares de pessoas descontentes com o canal. Eles (as grandes corporações e oligopólios de comunicação) terão que ser esforçar muito mais daqui para frente. Como hoje eu não preciso mais assistir a programação da TV Globo, quem sabe o que mais poderei deixar de ver (ou ler, ou ouvir) amanhã.

E você? Por que não assiste mais a TV Globo?


Fonte:
(1) MATTOS, Sérgio. História da televisão brasileira: uma visão econômica, social e política. 2ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002

(2)CRUZ, Renato. TV Digital no Brasil: tecnologia versus política. São Paulo: Editora Senac, 2008.

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