quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Animais do mesmo gênero, mas de espécies distintas

Texto publicado em: Convergência Digial


Por André Barbosa Filho*
20/09/2010


Quem pensa que o uso da Internet no computador vai acabar com o hábito de ver TV está equivocado (a). Enganam-se os que acreditam que, conforme aumenta o uso da internet em diferentes plataformas no Brasil, menos tempo as pessoas dedicam à TV.

Pelo que menos é o que constata a pesquisa “Estilos de Vida e Bem-Estar Individual”, feita pela empresa Market Analysis.O estudo foi realizado em julho de 2009 com 483 adultos com mais de 18 anos residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre e aponta que o percentual de brasileiros que passou 11 horas ou mais por semana navegando na Internet saltou de 11% para 17%.

Em outros termos, isso significa que, numa semana sem feriados, um em cada seis brasileiros fica metade do dia ou mais tempo acessando a Internet, isto, claro, dentro do grupo de pessoas que possuem internet.

O aumento na quantidade de horas na rede coincide com a expansão acelerada na venda de computadores e da banda larga no Brasil.

O estudo ressalta que, o consumo de conteúdos audiovisuais tem como referência não apenas a TV por assinatura, mas muito especialmente, a TV aberta. Inclusive, vale ressaltar que no Brasil, Sky e NET, operadoras líderes do serviço de TV paga foram obrigadas a incluir em seus modelos de negócio, a oferta de conversores e antenas UHF para sintonia da TV aberta digital, já que comprovadamente, 60% de seus assinantes, faziam seus contratos para receber o sinal empacotado da TV aberta. É significativo, não é?

Mas mais significativo e o dado que indica que o percentual de internautas que dedicam o mesmo tempo para assistir a TV, por sua vez, aumentou de 62% para 70,5% em um ano. Segundo os responsáveis pela pesquisa, esses dados contradizem a idéia defendida por alguns de que, com a expansão da rede, haveria uma profunda mudança muito nos hábitos de consumo de mídia, a ponto de a TV perder espaço para a rede mundial de computadores que, na oferta de conteúdos digitais, avança de modo acentuado para os celulares e para as diversas plataformas de videojogos. A profecia que aponta para a morte anunciada da TV aberta está sendo, deste modo, posta em dúvida, não é mesmo?

O uso simultâneo de TV e Internet é uma realidade

Não bastassem os resultados do cenário brasileiro, também nos países desenvolvidos, onde os conteúdos e os acessos são predominantemente pagos,a TV mantém um nível de audiência importantes em comparação as ofertas provenientes das plataformas IP e da banda larga.

Os norte-americanos estão passando mais tempo assistindo TV e usando a internet ao mesmo tempo, e quase 60% do público de televisão usam a internet ao mesmo tempo ao menos uma vez por mês, de acordo com pesquisa do centro de estudos Nielsen.Segundo o relatório do Nielsen, os resultados do estudo desmentem temores de que a internet estaria ganhando popularidade em detrimento da televisão tradicional.

“A preocupação inicial era que a internet e vídeos e entretenimento móveis iriam, aos poucos, tirar o público de TV tradicional, mas o aumento contínuo desse público, junto com a expansão do uso, indica algo bem diferente”, disse o diretor de produtos de mídia do Nielsen, Matt O'Grady.

O relatório sobre o quarto trimestre de 2009 que registrou dados de público de televisão, internet e mídia por celular, mostra um aumento de 35% no tempo que norte-americanos passam em frente à TV e na internet ao mesmo tempo, em comparação com o mesmo período de 2008. Segundo a pesquisa, os norte-americanos passam 3,5 horas por mês assistindo à TV enquanto navegam na internet.

Já o uso de vídeos móveis aumentou 57% no ano, de 11,2 milhões de pessoas para 17,6 milhões. O crescimento é atribuído, em grande parte, ao aumento nas vendas de smartphones. De acordo com o estudo da Kaiser Family Foundation,o avanço tecnológico ajudou crianças e adolescentes a consumirem mais mídia e nos últimos 5 anos o consumo diário de mídia entre crianças e jovens de 8 a 18 anos aumentou assustadoramente.

De 2004 para cá o aumento foi de 1h17 por dia – são 7 horas e 38 minutos em média, cerca de 53h por semana. Os culpados? Smartphones, iPods, videogames portáteis e outros gadgets. Mais do que o aumento do percentual de crianças e adolescentes com celular (de 39% em 2004 para 66% em 2009) e o consumo médio de 4h29 de TV por dia, o que chama atenção é a simbiose das múltiplas telas: ouve-se música, joga-se (no computador ou videogame) ou vê-se TV usando celular e estudando, tudo junto e ao mesmo tempo.

Segundo o trabalho “a multitarefa é um fenômeno que permite às crianças e jovens condensar o consumo de mídia -as 7 horas e 38 minutos diárias de mídia equivalem, na verdade, a 10 horas e 45 minutos- porque mais de um meio é utilizado simultaneamente. Além da TV, também são populares entre as crianças a música (2 horas e 31 minutos diários), o computador (1 hora e 29 minutos) e os videogames (1 hora e 13 minutos). Por outro lado, a mídia impressa é consumida por apenas 38 minutos por dia.

Este dado é significante para entender o novo cenário multiplataforma que vivenciamos e nos reporta a outras importantes questões:

Qual será o futuro da televisão aberta e gratuita? Ela será substituída pela TV paga em países emergentes e em desenvolvimento as curto prazo? Como sobreviverá num ambiente convergente, com tantas ofertas de informação vindas de outros meios, a partir de outros modelos, de outras estruturas de rede? Como entender o fascínio que a TV exerce, mesmo entre os nativos digitais, ou seja, aqueles que já nasceram em um mundo com tecnologias digitais, indiferentemente da fonte paga ou aberta com oferta de conteúdos televisivos?

A TV linear que temos e realizamos hoje vai forçosamente mudar diante da oferta de informações baseadas na hipertextualidade, da superposição de dados, vídeos e sons presentes nas criações e produtos digitais? Quais as características que diferenciam o sistema de transmissão de sinais por radiodifusão (broadcast)daqueles que são enviados via IP. É obvio que a Internet e as redes sociais vieram para ficar.

São conquistas das sociedades humanas, ávidas por se expressar, por participar, por se informar, por se educar e por se divertir. Novas formas de comunicação estão nascendo baseadas no ciberespaço, na integração de plataformas. Os modelos da radiodifusão analógica no formato centralizado, de um para todos, vai aos poucos se transformando com o evento da TV Digital interativa, influenciada pela necessidade de responder a ânsia de interação dos indivíduos e grupos sociais.

Entretanto, é importante frisar que a TV, em países desenvolvidos como Japão, Inglaterra, França, Itália, os escandinavos, Alemanha, Austrália e Estados Unidos tem um espaço significativo da atenção, seja em alguns casos, majoritariamente por assinatura, em outros em modelos abertos e gratuitos. A TV, ao lado do cinema, são os grandes produtores de conteúdos audiovisuais da indústria cultural. Portanto, determinam padrões e hábitos de consumo.

A TV nos países em desenvolvimento é o meio maior penetração domiciliar e apresenta-se no formato aberto e gratuito, cenário que coincide com a baixa oferta de infra-estrutura de Internet de alta velocidade. A TV digital interativa não existe em países que possuem redes de banda larga. Estes já utilizam a interatividade por outros meios.

A TV digital nestes países reúne a oferta de modelos de programação onde imperam os conceitos de entretenimento e os espetáculos artísticos, as produções audiovisuais caras e com alto acabamento, as grandes coberturas jornalísticas Tudo com alta definição e com toda tecnologia que puder somar-se à qualidade de imagem e de som de seus programas.A TV digital proposta pelo Brasil é interativa, quer proporcionar a bidirecionalidade, ou seja, incluir em seu modelo, o canal de retorno para introduzir a possibilidade interação entre produtores e o público.

Estão sendo criados modelos para a publicidade comercial, para compras e acessos bancários, e, especialmente, na oferta de serviços públicos como a marcação de consultas no SUS, pagamento e acompanhamento de impostos, educação à distância em todos níveis e diversos objetivos de formação e capacitação, em apoio a produção cultural audiovisual, nacional, regional e local e ao desenvolvimento da cidadania plena.

A convergência da TV digital com as plataformas IPs vai ser necessária entre outras necessidades para baratear os custos de transmissão de conteúdos locais, para propiciar o intra-fluxo de programação, para utilização como canal de retorno.

As TVs por IP vão acontecer socialmente na medida em que a oferta de banda larga, rápida, barata e universal for uma realidade nestes países cem desenvolvimento que somam 4.5 bilhões de pessoas. Mas vão tornar-se hegemônicas quanto à exibição de produções sofisticadas e que respondam a grandes investimentos de produção?

A lógica industrial deve continuar a ordenar a exibição em mídias seletivas, que atendam o deleite da percepção sensorial humana e garantam a remuneração dos investimentos, numa cadeia que tem como ponto terminal a mídia massiva. E neste contexto estão as salas de cinema a TV a Cabo e a TV Digital Aberta em Alta Definição.

A Internet e as redes sociais já são responsáveis pelo aparecimento de miríades de novos produtores e de conteúdos que rapidamente vem se tornando hits globais. Entretanto, dizer que os trash movies, as produções de garagem, as manifestações individuais por mais espaço que ocupem da atenção do público em geral, vão impor à indústria de conteúdos seus modelos, é um pouco temerário.

O que podemos e devemos propor é um ambiente público onde as manifestações do individuo ou de coletivos sejam livres para florescer. Seja através dos espaços em redes sociais, blogs, sites, dos celulares e handsets, mas, igualmente, disputar espaço nas telas maiores, onde os investimentos são mais robustos. Aí, se soma a cobertura em nossos países em desenvolvimento da TV aberta.

A TV digital pública interativa deve respeitar suas características de veículos de radiodifusão. Ela não é IP. È transmitida pelo ar. E isto não a faz velha ou ultrapassada. Ao contrário. Sua rede de grande capilaridade deve tornar-se um braço importante na disseminação dos conteúdos audiovisuais produzidos por agentes nacionais e, de preferência, com temáticas ligadas a nossa identidade cultural.

E, portanto, soma-se ao esforço do avanço do PNBL na construção de uma economia da cultura e de uma industrial de conteúdos pujante e com grande aceitação popular.Entretanto, a rede de banda larga, com seus backbones, backhalls e as tecnologias e que permitem o acesso final tem características de tráfego de dados e conteúdos audiovisuais diferentes das redes de radiodifusão.

Estas não podem prescindir do projeto de retransmissão de sinais nacionais simultâneos por entes afiliados que, por sua vez, devem ser alimentadas regionalmente ou localmente. Assim, podemos afirmar que o mesmo objetivo de propiciar a participação a todos que os querem se comunicar livremente está contemplado, mesmo que através de modelos diversos de transmissão e recepção que evidentemente não se excluem entre si, mas se somam, por sua complementaridade.

Finalmente, todos sabem, o Estado induz as políticas. Estas devem corresponder aos anseios da sociedade. Banda Larga é um desejo legitimo. Vamos, portanto, apoiar as iniciativas neste sentido. Mas não nos esqueçamos que o único meio de acesso que permite o acesso à informação sem custos diretos para as audiências ainda é a TV aberta e gratuita. Nenhum mais. Vale a pena investir dinheiro público neste projeto? Temos certeza que sim.

* André Barbosa Filho
Assessor Especial da Ministra-Chefe da Casa Civil
Conselheiro do Fórum SBTVD
Conselheiro do CGI
Doutor em Comunicação

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