segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Brasil ainda não entrou na Terceira Onda

Em 1997, Alvin Toffler, guru do marketing mundial, lançou o livro a Terceira Onda. Sucesso no mundo todo, o livro que tenho em mãos se encontra na 29ª edição. Toffler faz uma análise precisa e profunda dos movimentos sociais e econômicos que moldaram as sociedades, passando pela cultura, trabalho, guerras, até o sexo. A Primeira Onda foi a Agricultura, a Segunda Onda, a Era Industrial, e a Terceira Onda, a Era da Informação.

Dias atrás fui entrevistado pela estudante de jornalismo Taís Fransciscon, sobre os filmes brasileiros que tinham como pano de fundo a Ditadura Militar. Entre outras coisas, observei que falta ao cinema mostrar o que realmente significou para o Brasil viver 25 anos sobre o regime dos generais. E a resposta é: por conta da ditadura, o Brasil ainda não entrou na Terceira Onda.

O processo de industrialização no Brasil começou tardiamente se comparado com países desenvolvidos. Nos EUA o ápice do industrialismo se deu por volta de 1955 e começou seu declínio na década de 70. No Brasil foi exatamente o contrário. O início do industrialismo se deu com Getúlio Vargas (1950-1954) e teve seu ápice na década de 70 com o “milagre econômico” já no governo militar.

A industrialização foi um processo que dividiu o mundo entre produtores e consumidores. Formou as grandes cidades, alterou o núcleo familiar, criou as escolas, os asilos de velhos, “o industrialismo foi mais do que chaminés e linhas de montagem. Foi um sistema social rico, multiforme, que tocou todos os aspectos da vida humana e atacou todas as feições do passado” (Toffler). Para os países industrializados esta economia trouxe grandes benefícios. A educação, a saúde, aumento da expectativa de vida e o bem-estar social foram distribuídos de forma mais equânime entre o chão da fábrica.

Porém, no Brasil alguns fatos importantes marcaram nosso processo de industrialização, inclusive sua interrupção pós-regime militar. Na década de 70, os países desenvolvidos começaram a reconhecer os sinais da nova economia, informacional/global e o industrialismo começava a dar sinais de cansaço. O fato que marcou esta época foi a crise mundial do petróleo. No Brasil, a política de expansão da indústria promovida pelos militares fez surgir uma enorme dívida pública e os militares deixaram o governo, afinal, o “perigo do comunismo” não existia mais e em 1985 entregam o governo para os civis. Esta política desevolvimentista levou o Brasil à moratória de sua divida externa. Com a famosa frase de Sarney: "devo não nego, pago quando puder", o Brasil deixava de lado a Era Industrial, mesmo sem ter completado o ciclo. Exatamente aí começam os problemas econômicos brasileiros. Os governantes que assumiram a responsabilidade de levar adiante o processo tardio de industrialização no país e distribuir seus dividendos à população quiseram dar um salto de mais de 20 anos e acompanhar o mundo em sua política neoliberal. Nosso processo industrial ainda não tinha se completado e já foi desfacelado pela política do Estado mínimo e o bem-estar social entregue ao “mercado”. Porém, está política só podia ser aplicado em países onde os benefícios da Era Industrial fora distribuído a uma grande parcela da população, caso contrário, o mercado seria pequeno e muitos ficariam à margem dele. Foi exatamente o caso brasileiro. O Governo FHC eleva a dívida pública de 60 bilhões de dólares para 850 bilhoes em oito anos. O Real é valorizado forçadamente até 1999 e depois desvalorizado levando centenas de empresas à beira da falênca, a concentração de renda aumentou de forma brutal no páis, as reservas cambiais quase se euxauriram. (leia artigo de Theotonio dos Santos sobre os mitos do governo FHC)

Sarney, Collor, Itamar e FHC não entenderam, ou não quiseram entender, e se voltar às características da Era industrial e promover o bem-estar social pela mão do Estado. Foi preciso um metalúrgico, o mais perfeito estereótipo do homem forjado na Era Industrial, assumir a Presidência do país para que o Brasil completasse o ciclo industrial. Todos os índices apresentados pela economia brasileira atual foram experimentado pelas economias desenvolvidas no passado industrial. Nosso atraso é gigantesco.

Agora, duas ideologias políticas concorrem para liderar o país no século XXI. O que está em jogo e a transição para a sociedade informacional (Dilma) ou novamente um salto (Serra) na tentativa de se acompanhar as tendências mundiais da economia e da globalização.

Curioso é que um lado (Serra) acusa o outro (Lula) de se beneficiar da base criada pelo Plano Real para conseguir implantar sua política econômica. Caso vença, Serra certamente será acusado por Lula de rceber um Brasil com melhor distribuição de renda e menos pessoas na linha da pobreza, onde o mercado poderá ter algum sucesso no comando da economia.

Acontece que não podemos dar um salto novamente. O processo de passagem da Era Industrial para a Era da Informação tem de ser gradual e constante. A questão política mais importante, “não é quem controla os últimos dias da sociedade industrial, mas quem modela a nova civilização que surgirá rapidamente para substituí-la” (Toffler).

A segunda onda durou 300 anos e ainda está presente em muitas economias. A Terceira Onda está se chocando com a cultura gerada pela industrialização rompendo padrões estruturais, gerenciais, familiares e moldando um novo agir, uma nova forma de ver o mundo e uma nova forma de se viver neste novo mundo, onde a tecnologia da informação tem um papel primordial, assim como a maquina a vapor e o tear na Segunda Onda. Mas apesar desta tecnologia informacional estar disponível para alguns brasileiros, ainda há uma grande desigualdade tecnológica no país e a maioria da população ainda não teve contato com a Terceira Onda.

Portanto, este foi o grande legado do regime militar no Brasil. Fechar-nos para as transformações sociais, democráticas e econômicas da nova era.

Alvin Toffler. A Terceira Onda: a morte do industrialismo e o nascimento de uma nova civilização. Record, 2007.

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