sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Preocupações para a Copa de 2014

Texto publicado em: Produção Profissional

Para as emissoras de TV, as preocupações sobre a próxima Copa do Mundo vão muito além da infraestrutura de aeroportos ou da reforma e construção de estádios. “Claro que isso é importante, senão a Copa não acontece. Mas não podemos nos esquecer da infraestrutura para a cobertura jornalística”, afirmou Fernando Gueiros, da TV Globo, durante o painel Copa do Mundo 2010 - Tecnologias empregadas e lições para 2014, realizado no congresso SET 2010. A Copa da África do Sul foi realizada em 10 cidades, com três jogos por dia na primeira fase. Foram usadas 34 câmeras por jogo, todas digitais e sem uso de fitas. Para facilitar o acesso aos vídeos, os jogos foram gravados simultaneamente em servidores HD e SD. “Muita gente acessava o material o tempo todo. Com as duas gravações sempre havia uma versão disponível”, explicou Benjamin Marriage, da empresa belga EVS, que forneceu os servidores para o evento da FIFA.
Os números da cobertura assustam: Na Host Broadcast Services (HBS), empresa responsável pela geração do sinal de TV, trabalharam 2.500 pessoas, em 40 equipes de ENG, usando mais de 300 câmeras, que armazenavam o vídeo em 180 servidores HD. Foram geradas mais de três mil horas de vídeos. Pela primeira vez houve geração de sinal específico para recepção móvel, com enquadramentos diferenciados, mais próximos dos lances. Além disso, 25 jogos foram transmitidos em 3D para 475 salas de cinema, espalhadas em 33 países. Mais de um milhão de pessoas assistiram aos jogos da copa em 3D.

Outra novidade foi a utilização de câmeras com super slow motion, que captaram imagens “que nem a olho nu conseguimos enxergar. São detalhes que surpreendem o telespectador”, na explicação de Carlos Camacho, da Videosystems, empresa que vende no Brasil as câmeras I-Movix, usadas na Copa. As imagens que mostram o impacto da bola ou o movimento dos músculos dos jogadores, foram captadas em velocidades que variam de 500 a 800 quadros por segundo. Para efeitos de comparação, a TV normal usa 30 quadros por segundo. A reprodução de velocidades maiores no ritmo normal da TV gera as imagens perfeitas em câmera lenta.
Já a Grass Valley projetou toda infraestrutura de ligação dos 10 estádios e o centro de imprensa. “Trabalhamos com 290 câmeras, enviando sinais de 10 locais diferentes para o centro de imprensa, onde tudo era centralizado”, explicou Freddy Litowsky.

Organização
Todas essas inovações são planejadas e organizadas pela própria FIFA, em conjunto com a HBS e empresas como a Grass Valey. “A FIFA é muito exigente e organizada. Para nós, brasileiros, ficou uma impressão muito positiva do planejamento do evento, que não deixou nada a desejar”, afirmou Fernando Gueiros, da TV Globo, ressaltando que a comunicação e a estrutura da FIFA e da HBS devem servir de exemplo para as emissoras brasileiras.

No entanto, essa visão positiva do planejamento da FIFA não impediu a percepção de problemas estruturais na África do Sul. Rubens Ortiz, da Band, reclamou muito da falta de equipamentos e profissionais capacitados. “Na África do Sul não existe mão de obra especializada disponível, nem equipamentos para locação, o que comprometeu qualquer alteração que precisávamos fazer”, explicou.

Não houve problemas com credenciamento, segurança ou locomoção, exceto em um jogo de semifinal. No confronto entre Espanha e Alemanha, realizado na menor cidade e com o menor aeroporto entre as 10 sedes, ocorreram problemas para chegar ao estádio. “Teve gente que não conseguiu desembarcar a tempo e chegou com o jogo já em andamento”, disse Rubens.

A partir das análises sobre o que funcionou bem na África do Sul e o que deixou a desejar, Fernando Gueiros e Rubens Ortiz apresentaram algumas preocupações sobre o planejamento para 2014. Os dois se mostraram bastante preocupados com a logística da cobertura e a falta de experiência brasileira em eventos deste porte.

A TV Globo chegou a deslocar equipes e unidades móveis entre cidades de um dia para outro, “uma agilidade necessário para a cobertura jornalística”, nas palavras de Fernando. Ele ressaltou que as estradas estavam perfeitas, com rodovias bem sinalizadas.

Essa rapidez, útil na África do Sul, será inviável no Brasil. Como o país tem proporções continentais e cidades-sede distribuídas pelas cinco regiões geográficas, existe a possibilidade de existirem jogos em Manaus, Belo Horizonte e Porto Alegre, no mesmo dia. Qualquer deslocamento de equipamentos entre essas regiões fica comprometido, mesmo considerando um período de semanas.

Esse problema fica mais evidente na medida em que não se sabe em quais cidades uma seleção irá jogar a partir da segunda fase. Os locais são definidos a partir da classificação na primeira fase, o que dificulta o planejamento da cobertura, hospedagem, equipe e equipamento necessários durante o mês da Copa.

Fernando ainda lembrou que o espaço perto dos estádios e no centro de imprensa deve receber uma atenção especial no Brasil. “Temos que pensar em cobertura mundial, com órgãos de imprensa de todos os países”, comentou. Isso significa espaço para estacionar caminhões, vans e unidades móveis, com fácil acesso e controle de trânsito. O centro de imprensa precisa ser instalado em local de fácil acesso, perto do aeroporto de da rede hoteleira.

Finalizando, Fernando levantou alguns pontos culturais que podem ser problemáticos no relacionamento brasileiro com a FIFA: “Como será essa parceria com os brasileiros? Como será a convivência entre a extrema organização da FIFA com o jeitinho brasileiro, que deixa tudo para a última hora?”, questionou. Além dos problemas estruturais, Fernando lembra que ainda há as inovações tecnológicas, como transmissões 3D, interatividades e uso de câmeras suspensas por cabos sobre o estádio, três temas que “devem predominar em 2014”.

Tanto Globo quanto Band ressaltaram que a Copa trouxe exemplos muito bons, mas a experiência na África acendeu uma luz amarela para a organização no Brasil. A TV Globo deslocou 250 profissionais para a África do Sul, entre engenheiros, jornalistas, pessoal de telecomunicações e de informática. Já a TV Bandeirantes, outra emissora aberta a transmitir o evento, enviou 140 pessoas.

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