quarta-feira, 15 de junho de 2011

Locadoras de filmes e séries pela internet roubam pontos de audiência da TV

Texto publicado em: FNDC

14/06/2011 |
Ataide de Almeida Jr.
Correio Braziliense

Por ser uma opção mais barata, o sistema tem sido apontado como uma das armas contra a pirataria

Contar com as emissoras de televisão para assistir a filmes inéditos ou até mesmo rever atrações e capítulos de séries costuma ser uma experiência ruim — ainda mais para quem tem apenas canais abertos.

Além da demora na transmissão, o telespectador ainda tem que ter fé nas emissoras para que o programa não seja interrompido bruscamente por reprises ou que não mude de horário. É aí que entra a internet para salvar o espectador e roubar pontos de audiência da televisão. Segundo pesquisa do Ibope, apenas em abril deste ano, três em cada quatro internautas acessaram sites de vídeo — isso representa 31,8 milhões de brasileiros, ou 74,3% dos usuários ativos da rede.

O Ibope também mostra o crescimento de usuários que acessam sites de vídeo na internet: 27% no período de um ano. É inegável que um dos grandes responsáveis por essa reviravolta são as páginas nas quais o usuário pode colocar o próprio conteúdo, como o YouTube, que completou seis anos no mês passado. O site recebe 3 bilhões de visitas diárias e, a cada minuto, são publicadas 48 horas de vídeos. Esses números devem aumentar com a inclusão de um serviço de locadora virtual. Desde maio, os usuários dos Estados Unidos podem alugar filmes via streaming — tecnologia que possibilita ver e ouvir o arquivo sem ter que esperar até o término do download — pelo YouTube.

É nessa área de locadoras virtuais que está a aposta das empresas de conteúdo no Brasil. “É um mercado em que se precisa investir pesado, mas que está valendo a pena”, explica Daniel Topel, CEO da NetMovies, maior locadora on-line do país. A companhia não divulga dados sobre o número de assinantes nem receita, mas garante que está dobrando anualmente o faturamento e o número de clientes. A grande jogada do NetMovies é disponibilizar tanto DVDs e Blu-rays quanto filmes on-line. O acervo conta com 23 mil títulos físicos e cerca de 3,5 mil na rede, que podem ser assistidos tanto pelo computador quanto por smartphones e tablets equipados com sistemas operacionais iOS e Android.

Assim como o Google, que incluiu em alguns modelos de televisores o Google TV, com conteúdo gratuito e pago da internet, a empresa de filmes on-line — comprada no ano passado por um fundo privado norte-americano por cerca de R$ 11 milhões — também aposta que essa união é o futuro para que o conteúdo da rede faça parte da televisão.

“Isso é muito bom, pois não demanda um computador, nem um set-up-box: basta conectar-se à internet e o conteúdo estará lá. Bem mais cômodo para o usuário final”, acredita Topel. Segundo a Samsung, durante o lançamento da linha SmartTV, foram 400 mil unidades vendidas de televisores com conexão à internet. A projeção é que este ano o número alcance 1 milhão.

Um dos empecilhos para que essa prática tenha alguns problemas no Brasil é a baixa velocidade da internet banda larga no Brasil. Dados do instituto Nielsen mostram que a média de velocidade é de 512KB a 2MB, enquanto que na Suíça, nos Estados Unidos e na França esse número varia de 2MB a 8MB. “Se a banda larga for larga para valer e puder atingir a todos, teremos uma maior distribuição de conteúdo digital. Esse é um dos principais fatores que mantém o Blu-ray e o DVD físicos ainda muito relevantes”, ressalta Topel.

O aluguel de conteúdo via internet pode surtir efeito também no combate à pirataria. O maior exemplo vem dos Estados Unidos. Pela primeira vez na história do país norte-americano, em maio, o tráfego de dados do Netflix — principal serviço de locação de programas e filmes dos EUA — superou o volume de transferência do BitTorrent, utilizado para troca de arquivos, na maior parte, piratas.

Na prática, a quantidade de conteúdo que pode ser baixado legalmente foi maior que o considerado ilegal. “A experiência com a pirataria é uma das piores que pode existir. Primeiro, não existe um serviço pirata que ofereça streaming de qualidade. Segundo, nunca se sabe o que está baixando, pode ter um vírus ou até mesmo um filme pornô no lugar do que o usuário pediu. No fundo, o internauta é carente de opções legais, ele quer ter a certeza que mesmo pagando um preço baixo vai receber um produto de qualidade”, ressalta Pedro Rolla, diretor de Produtos de Mídia do Terra.

O preço baixo do aluguel e também da assinatura dos serviços estão entre as armas do serviços de vídeos on-line para combater a pirataria. Pelo site do TerraTV Video Store, por exemplo, a partir de R$ 3,90 é possível locar filmes em alta definição e ainda é possível assinar o serviço por menos de R$ 20. “O conteúdo pirata pode ser gratuito e amplamente distribuído, mas a qualidade é muito ruim. O preço compensa. O último filme do Harry Potter, por exemplo, pode ser adquirido por R$ 6,90. Nem em locadoras físicas se encontra esse preço”, explica Pedro.

Em breve
A Netflix deve chegar ao Brasil em junho. O anúncio foi feito durante uma apresentação de novos aparelhos da LG nos Estados Unidos. Esses dispositivos vão ser exportados também para o Brasil com a tecnologia integrada. A empresa conta com 8,3 mil filmes e 24 mil episódios de séries. De acordo com o Financial Times, executivos da empresa estiveram em terras brasileiras no mês passado para negociar o licenciamento de programas, séries e novelas com as emissoras de televisão. A Netflix tem 24 milhões de assinantes nos Estados Unidos e no Canadá.

Dados demais
Daqui a quatro anos, 1 milhão de minutos de vídeos, o que equivale a 674 dias de transmissão, deve ser o volume de tráfego desse tipo de arquivo na internet, de acordo com a empresa de TI Cisco. Serão, aproximadamente, 15 bilhões de conexões via dispositivos do tipo tablets e celulares, sendo mais de duas conexões por pessoa no mundo. Ao todo, em quatro anos, o tráfego de dados irá atingir 1 zettabyte — ou 1 sextilhão de bytes, o quadruplo do que há hoje no mundo.

Nenhum comentário: