sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Lattes - Mestrado

Mestrado em Midia e Cultura pela Universidade de Marília - UNIMAR
Obtenção do título: 2006

Dissertação: TV Digital: uma nova mídia e uma nova recepção em uma sociedade em rede
Orientadora: Prof. Drª. Suely Flory


Fragmentos:

Introdução

Muito mais que meios de expressão ou de representação, os meios de comunicação, ou a mídia, sempre tiveram uma intrínseca ligação com a comunidade em que se inserem. O surgimento dos meios de comunicação de massa, um após o outro, deixaram marcas e influências em todas as sociedades. Não por acaso, Marshall McLuhan (1996) expôs que os meios de comunicação são extensões do homem.

Agora o mundo experimenta um momento transitório nas tecnologias da informação, que é a substituição do sistema analógico de transmissão de TV aberta pelo sistema digital. Com isso, debates, previsões, alertas, otimismos e pessimismos surgem não só no meio acadêmico, mas também nos campos político, econômico e social.

Uma nova mídia está surgindo trazendo consigo novos aspectos sociais ligados a ela. E este não é um fato novo. Situação como esta também ocorreu, guardando-se as devidas proporções, quando do aparecimento dos livros, da imprensa, do rádio, da televisão e, mais recentemente, da Internet, como demonstram Briggs e Burke (2004). Muitos desses aspectos sociais que ocorreram no passado influenciam o cotidiano das pessoas ainda hoje.

Devido a essas experiências históricas, surge a necessidade de se tentar apontar questões que poderão ser vividas quando a nova mídia estiver disponível dentro da casas, escritórios, ruas e em uma sociedade em interconectada. Castells (1999) compara o estabelecimento da sociedade em rede a outro de igual importância. O pesquisador espanhol afirma que estamos vivenciando um momento histórico que encontra precedente na invenção do alfabeto e que nossa cultura e as formas de comunicação nunca mais serão as mesmas.

Capítulo 1
Sociedade em Rede

O conceito de “sociedade em rede” foi primeiramente tratado por Castells (1999), ao apontar que uma “transformação tecnológica de dimensão histórica” está ocorrendo. O pesquisador compara a possibilidade de, pela primeira vez na história, surgir um sistema capaz de integrar as modalidades de escrita, oral e audiovisual da comunicação.

Será uma revolução tão importante quanto o surgimento do alfabeto, quando este representou a base para o desenvolvimento da filosofia ocidental.
Hoje, o surgimento desta convergência mudará o modo como o ser humano se comunica.
Por certo não estamos vivenciando ainda uma sociedade em rede, mas essa corrida já foi iniciada e não tem mais como ser interrompida. Castells (1999) pondera que esse novo sistema ainda não está totalmente instalado, mas seu desenvolvimento acontecerá em ritmo e distribuição geográfica irregulares nos próximos anos. No entanto, é certo que se desenvolverá.

Desde que McLuhan (1996) anunciou a aldeia global, os meios de comunicação ganharam uma perspectiva de integralização de todos os povos e culturas. Muitos podem ver essa integralização como uma dominação cultural. O certo é que a partir desse conceito, a idéia de que todos os seres humanos estão de certa forma inter-ligados, tornou-se cada vez mais forte.

Capítulo 2
Homens e Máquinas - Ligações Perigosas

Com a Internet, a utilização do PC torna-se mais uma vez enriquecida e freqüente. Pesquisas de medição já apontam que algumas pessoas gastam mais tempo em frente ao computador do que diante da televisão. As implicações do computador na vida das pessoas são tão complexas que vêm sendo estudadas por inúmeros pensadores na tentativa de se compreender a influência dos computadores na vida, nas artes, nos processos mentais, na educação, nas comunicações e na relação com o indivíduo.

Mas quando o computador começou a se transformar em um sistema impregnado de sentido e significações semióticas? Em que momento o indivíduo passou a se relacionar com essa máquina de forma tão complexa? A partir das interfaces e de suas metáforas visuais.

Ao ligar o computador, inicia-se uma relação homem x máquina, repleta de códigos e significados importantes. A primeira relação se estabelece pela interface do computador, e a segunda, pela capacidade do computador em ser uma mídia semiótica, pois se trata de um signo genuíno.

Capítulo 3
Internet, TV Digital e Convergência

A digitalização do sinal de transmissão e o HDTV é que estão trazendo inúmeras modificações ao ato de ver televisão e ao modo como os indivíduos estão se relacionando com o aparelho. A partir do momento em que toda a programação das emissoras for transmitida digitalmente e em HDTV, o modo como se vê televisão hoje não será o mesmo.

O magnata da informática Bill Gates faz esta previsão. Para ele a indústria do entretenimento, em um futuro próximo, vai se tornar obsoleta. É uma visão positiva, porque, na visão dele, estão surgindo novos e melhores modelos de negócios que se tornaram possíveis devido à tecnologia. A diferença fundamental, segundo ele, será a morte dos conceitos atuais referentes a canais e programações. "A idéia de ter apenas aquela coisa linear - você não muda o seu canal e segue a programação, e as notícias locais alavancam a audiência de toda a programação - está saindo de moda, mas devagar”.

Será o reinado do vídeo-on-demand, que nada mais é do que “a possibilidade de se receber vídeo e áudio (filmes, notícias, desenhos) sob encomenda, no momento em que se desejar, bastando um comando do controle remoto”. (NEGROPONTE, 2003, p. 24).


Capítulo 4
O navegador do ciberespaço

Santaella (2004), em um esclarecedor trabalho sobre os tipos de usuários da grande rede, apresenta-nos três tipos de leitores do ciberespaço e o processo de raciocínio que cada um deles desenvolve no ato da navegação, a saber: o leitor contemplativo, o leitor movente e o leitor imersivo. A cada um deles, a autora relaciona um tipo de raciocínio ou inferência, classificados por Peirce: a abdução, a indução e a dedução, respectivamente.

Isso me conduziu à postulação de que os três tipos de usuários, o novato, o leigo e o experto, estão sob o domínio, cada um deles, de operações de raciocínio, de inferências mentais, que de acordo com Peirce, são os mecanismos lógicos fundamentais que conduzem o pensamento humano: a abdução, a indução e a dedução. Essas operações dão origem a três graus ou níveis perceptivo-cognitivos que se constituem nas fundações para a construção do modelo cognitivo do leitor imersivo ou navegador: o navegador errante, aquele que abduz, o navegador detetive, aquele que induz e o navegador previdente, aquele que deduz. (SANTAELLA, 2004, p. 72).

Assim, para a pesquisadora, o primeiro nível de leitor é o contemplativo (errante), ou aquele que, devido à sua pouca experiência em navegação, tem dificuldades em encontrar os caminhos ou informações que deseja. Sua navegação torna-se repleta de idas e vindas, tentativa e erro, insights, adivinhações e, por fim, hipóteses, ou seja, as mesmas características do pensamento abdutivo.

Capítulo 5
Aspectos da recepção - da literatura às mediações

As teorias da Estética da Recepção surgiram pela primeira vez no início dos anos 70, como tentativa de estudar as obras literárias, do ponto de vista do efeito que a obra proporcionava no leitor. A Estética da Recepção busca analisar os textos literários através da ótica do receptor, preocupando-se em constatar “como o texto prevê o seu leitor” (ISER, 1978) ou qual a recepção de um texto através do tempo, uma visão diacrônica da obra desde a época em que foi escrita até nossos dias (JAUSS, 1993).

A literatura contemporânea, que se consolida a partir dos anos 50, irá se caracterizar, cada vez mais, pela fragmentação e pelo experimentalismo. Tentar ler Joyce, Kafka, Guimarães Rosa, Saramago, entre muitos outros, como um leitor ingênuo, torna-se quase impossível.

Ao transportar o perfil e o papel do leitor de livros para o leitor da ficção narrativa televisiva, fica evidente o alargamento deste conceito. “Precisamos dilatar sobremaneira nosso conceito de leitura, expandindo esse conceito do leitor do livro para o leitor da imagem e desta para o leitor das formas híbridas de signos e processos de linguagens”. (SANTAELLA, 2004, p. 16).

Considerações Finais

A rede está se expandindo e não há como deter esse movimento e nem é preciso. Alerta e consciente dos riscos e perigos de uma sociedade em rede, será possível se beneficiar das vantagens oferecidas pela tecnologia dos computadores, seja pela rapidez nas informações, na medicina, nos negócios, ou no cotidiano das pessoas. A qualidade de vida das pessoas está melhorando e, mais uma vez na história, a tecnologia cria um abismo entre as pessoas que podem usufruir dessa tecnologia e aqueles que não podem.

E, nem de longe, a forma de auxiliar os que não podem usufruir a tecnologia é tentar impedir que ela se expanda. O que é preciso fazer é criar meios para que essa grande parcela de excluídos tenha condições para alcançá-la, e isso deve ser feito por medidas democráticas de órgãos do governo e debates com a sociedade civil.

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