quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A TV Digital fracassou?

Chega a ser impressionante o número de vozes que teimam em proferir este discurso. Muitas até estão repletas de boa vontade, pois analisam as transformações pelas quais a sociedade está passando e aferem empiricamente as alterações nos padrões de consumo de produtos audiovisuais e, com isso, projetam cenários nada animadores para o futuro da TV Digital aberta no Brasil. Isto é até saudável, mas daí a afirmar que a TVD brasileira fracassou é um exagero na avaliação ou um discurso político-ideológico partidarista ou, no mínimo, inocente.

As lamúrias são muitas: a falta da prometida interatividade, o fim do Ginga, a decisão quanto ao não uso da multiprogramação, as ameaças ao modelo de negócios causada pela TV na internet e a consequente fragmentação da audiência, a baixa aquisição de televisores com conversores embutidos, o preço dos conversores para os aparelhos analógicos, pouca produção de conteúdo em alta definição e muitas outras.

É compreensível que muitos considerem todos esses fatores como pontos decisivos e decretem o fracasso da TVD brasileira. Contudo, por uma outra perspectiva, a tecnológica e comercial, a TVD brasileira não é um fracasso, muito pelo contrário, ela é um caso de sucesso frente a muitos mercados internacionais de televisão. Se não vejamos :

  1. a TVD brasileira optou por um padrão de digitalização robusto, que permite a mobilidade e a interatividade mesmo em televisores com antena interna. Foi o único país que incorporou características próprias a este padrão (o Ginga) e hoje exporta essa nova configuração para 12 países, na America do Sul e África.

  2. A tão esperada interatividade nunca foi uma promessa dos radiodifusores. Essa demanda sempre foi encampada pelo Governo Federal como forma de promover a inclusão digital e vem sendo desenvolvida dentro das limitações de qualquer atividade governamental. Esta inciativa, se justificava quando dos estudos para adoção do sinal, a internet via banda larga no Brasil ainda era um item caro e precário. Daí a vontade do Governo Federal em utilizar a TVD como plataforma de inclusão digital. Contudo, o acesso a internet via banda larga vem crescendo muito no país, talvez até mesmo comprometendo esse papel da TVD. No caso da interatividade, a falta de um modelo de negócios estabelecido é que não permitiu que ela pudesse ser utilizada pelas emissoras em larga escala. Contudo, estão entrando em cena, os dispositivos que permitem uma interatividade via segunda tela, e o Ginga será utilizado para fazer a sincronia entre o aparelho de TV e os dispositivos móveis. 

  3. Outro discurso sempre utilizado é de que as pessoas estão deixando de ver televisão e buscando seus programas nas plataformas móveis ou on-demand, principalmente os jovens. Isto é verdade, mas não tem gerado o impacto que os alarmistas estão proferindo. Pesquisas nos EUA estão demonstrando que o novo hábito de assistir televisão conectado às redes sociais (a chamada TV Social)  está contribuindo para elevação no número da audiência dos programas televisivos. E mais, em sua 7ª edição, a pesquisa Kids Experts, do Cartoon Network, procurou entender como crianças e adolescentes se relacionam com diferentes telas, plataformas e tecnologias quando consomem conteúdo. No total, foram realizadas 900 entrevistas online considerando os países Brasil, Argentina e México, sendo 300 somente no Brasil, no período de julho e agosto deste ano. Participaram crianças de 7 a 10 anos e adolescentes de 13 a 15 anos, ambos das classes ABC. Os entrevistados foram divididos em dois subgrupos: duo plataformas (possuem e usam TV por assinatura e computador e não usam tablet e/ou smartphone com internet) e multiplataforma (possuem e usam TV por assinatura, computador, celular com acesso à internet e/ou tablet). Crianças e adolescentes com níveis diferentes de acesso à tecnologia em casa apresentaram padrões de consumo distintos. No caso dos adolescentes, a pesquisa detectou que para 96% é fundamental que uma empresa disponibilize seus conteúdos em todas as plataformas. Além disso, tanto crianças quanto adolescentes conseguem transitar de uma plataforma para outra com muita naturalidade e sem interrupções.  Nos dois subgrupos, duo e multiplataforma, a TV foi apontada pela grande maioria como a plataforma mais acessada em casa – de 88% a 99% dos entrevistados. Na sequência vem o computador, para 78% a 87% das crianças e adolescentes. Quando estão fora, o smartphone é considerado por 72% das crianças e adolescentes como melhor plataforma para os momentos de espera. Na escola, o tablet é a preferência de 50% das crianças e 20% dos adolescentes multiplataforma. (pesquisa completa Aqui!)

  4. O Brasil poderá ser o primeiro país a cumprir um cronograma de desligamento do sinal analógico. Para isso, o Governo estuda realizar o switch off  por etapas e não ao fim de um prazo, como foi realizado em vários países, como EUA e Espanha, fazendo com que milhares de pessoas, do dia para a noite, ficassem sem acesso à programação das emissoras via televisão. 

  5. A questão do conteúdo é mesmo um problema, mas isso se deve ao modelo de negócios praticado no Brasil. Aqui, 90% ou mais do conteúdo televisivo é produzido pelas próprias emissoras. Assim, fica demasiadamente caro produzir toda a programação em Alta Definição sem que o valor do comercial acompanhe esse aumento no custo de produção. Nada mais natural então, do que os produtos produzidos em HD sejam os mais atrativos, como reality Shows, novelas, séries, etc. e o que o jornalismo apenas de estúdio seja transmitido em HD. Contudo, a lei 12.485/2011 que trata da TV por assinatura no país, poderá, de certo modo, contribuir com essa questão, pois ela prevê um incremento na produção audiovisual brasileira que poderá refletir na TV aberta. 
Por fim, é preciso ter em mente que o mercado audiovisual no Brasil é um dos maiores do mundo, assim como o mercado publicitário, que ocupará em 2013 a 5ª colocação, movimentando em 2014 U$ 22 bilhões de dólares* e que sediará os dois maiores eventos comercias do mundo: Mundial da FIFA e jogos Olímpicos. Alguém duvida de que a TV Digital aberta terá o papel principal na transmissão desses eventos? De toda a verba publicitária investida nos meios de comunicação brasileiros, a TV aberta fica com 62,9%. A internet é a segunda colocada, mas apenas com 14% de participação no bolo publicitário**. É uma diferença brutal para ser tirada em um curto prazo. A questão não é apenas tecnológica, o hábito de muitas pessoas tem de mudar. Está mudando, mas não a toda velocidade. 

O que definirá o mercado de TV Digital para os próximos anos são as políticas de comunicação que serão adotadas. A porcentagem do capital estrangeiro (limitada a 30%) prevista em lei atualmente, poderá em breve, se tornar o grande debate em torno das politicas de comunicação no Brasil. O problema, é que qualquer conversa que gire em torno de um novo marco regulatório para a comunicação brasileira acaba por ser tratada como uma tentativa à censura. É uma pena que os proprietários dos veículos de comunicação e muitos políticos se deixem levar por esse engano. Deixar tudo como está é um perigo, pois a pressão dos conglomerados internacionais de comunicação e das empresas de telefonia poderá trazer sérias consequências para a comunicação no Brasil. 

Desta forma, atualmente, a TV Digital brasileira não pode ser considerada um fracasso, mas se tudo continuar como está, aí sim, poderemos ver fracassar um projeto nacional de comunicação.

Fonte:
* Folha de S. Paulo
** Grupo de Mídia São Paulo

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