segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Desligar ou não a TV analógica em 2015?

O Congresso SET 2013 debateu com rigor o processo de apagão analógico no País e as consequências da migração da TV Analógica para a Digital. Já na cerimônia de abertura, realizada na manhã de 20 de agosto de 2013, ficou claro que os desafios dos broadcasters brasileiros no próximo ano e meio serão muitos devido ao switch-off marcado pelo governo Federal para o início de 2015 em algumas cidades do Brasil. Ainda foram debatidos temas como a licitação da faixa de 700 MHz, as interferências que esta poderia gerar no sinal de TV Digital, a migração da rádio AM para FM, transmissões satelitais, e muitos outros temas nas 45 palestras em mais de 90 horas de debates realizados em São Paulo entre 19 e 22 de agosto passado.


Por: Fernando Moura (Revista da SET) e Francisco M. Filho



Nos quatro dias de Congresso, o apagão analógico e a transição agora estabelecida para começar no primeiro dia de 2015 estiveram presentes em quase todas as salas destinadas às palestras e em conversas nos corredores do Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo.
Com um total de 1270 participantes, a maioria brasileiros, mas com uma interessante presença estrangeira, da qual cabe destacar o Keynote Gordon H. Smith, presidente e CEO da NAB e uma interessante comitiva vinda do Japão – basicamente engenheiros da NHK, emissora estatal nipônica - o Congresso da SET mostrou mais uma vez que é o maior fórum tecnológico do País, e que continua a ser um momento de reflexão e questionamento da situação atual e o futuro da TV no Brasil.
De fato, na edição de 2013 do Congresso SET, os broadcasters brasileiros estiveram, segundo vários consultados pela reportagem da Revista da SET, frente a uma das maiores mudanças tecnológicas da TV no País, uma mudança sem voltas e na qual, como muito coincidem em dizer, não há como falhar, já que no sinal de TV Digital “temos uma imagem excelente ou simplesmente negro”, como disse um dos palestrantes.
Das autoridades do Governo Federal que também estiveram presentes, soube-se que até o final de outubro de 2103, já com a realização de audiência pública, estará definido o cronograma de desligamento analógico no País e quais serão as primeiras cidades a serem apagadas, porque o Governo teria previsto realizar o leilão da faixa de 700 MHz já em abril ou maio de 2014.

Veja matéria completa no sitio da Revista da SET em: http://www.set.org.br/artigos/ed136/ed136_pag12.asp


LTE x TV Digital


Estudos ainda irão determinar como será a convivência entre os dois sistemas.
Em uma movimentada sessão no Congresso SET 2013, palestrantes e convidados procuravam responder a uma pergunta que pode parecer simples, mas que representa investimentos vultosos, regulamentação para o setor de telefonia e radiodifusão e prestação de serviço de qualidade para a população: como será a convivência entre as antenas para a recepção da TV digital e da telefonia 4G?

A pergunta, infelizmente, não foi respondida e para acirrar ainda mais o debate, outras perguntas surgiram, também sem resposta. Contudo, ficou claro nas apresentações que a coexistência dos dois sistemas é possível. Para tanto, é preciso realizar testes laboratoriais e de campo em locais representativos da radiodifusão.

O problema é o tempo escasso para se atender ao cronograma do governo Federal, que prevê o início do desligamento do sistema analógico para 1º de janeiro de 2015. Data de interesse para as operadoras de telefonia, que irão utilizar a faixa de frequência de 700 Mhz para serviços 4G. Nesta primeira fase, 724 municípios se enquadrariam no critério do cronograma.

Agnaldo Silva, (SET/ SBTVD), também externa sua preocupação quanto ao início do desligamento do sistema analógico para 2015 devido, principalmente, ao legado de televisores que não serão aptos em receber o sinal digital e à falta de definição em se resolver este problema, ou pela fabricação de novos televisores de baixo custo ou via set-top-box.

Silva acredita ser praticamente impossível atender à demanda criada pelo apagão analógico por essas duas alternativas em um prazo tão curto. Segundo ele, a capacidade produtiva do parque industrial instalado no Brasil não tem condições de fabricar o número necessário de aparelhos que farão parte do legado de televisores incapazes de receber o sinal digital, cerca de 60 milhões, sem contar os demais aparelhos de telas maiores e que já estavam previstos ou mesmo os set-to-box, em apenas dois anos. “Até poderíamos ter, mas os investimentos seriam altos demais e teríamos que começar hoje”, afirmou Silva. A pressa para desligar o sistema analógico geraria dois problemas: primeiro o dos telespectadores, que do dia para a noite ficariam privados de consumir a programação televisiva, teriam motivação suficiente para procurar outras formas de consumo audiovisual em seu antigo aparelho, seja pela TV paga ou pela IPTV. Segundo que sem os devidos testes e regulamentações o sistema LTE poderá causar interferência no sinal da TV Digital. E em se tratando de interferência no sinal digital de televisão o resultado é apenas um: tela preta.

De acordo com Luís Fausto, engenheiro da TV Globo, as interferências no receptor de TV Digital podem ocorrer pelos seguintes motivos:

  • emissão interferente com faixa de frequência superposta ao canal de TV (co-canal); 
  • emissão fora de faixa ou espúria do sinal interferente superposta ao canal de TV (faixa adjacente); 
  • emissão do sinal interferente ou suas emissões fora de faixa ou espúrias superpostas ao canal simétrico em relação à frequência do oscilador local (frequência imagem); 
  • emissão do sinal interferente ou suas emissões fora de faixa ou espúrias superpostas a qualquer parte da faixa de entrada (470-806 MHz) que afetem significativamente o AGC e/ou produzam produtos de intermodulação com nível excessivo (saturação); 
  • quando é utilizado um booster na recepção, a amplificação e a faixa de entrada eventualmente maior (por exemplo: VHF + UHF) tornam o sistema ainda mais sensível à saturação.


De acordo com Júlio Omi, Universidade Mackenzie, que também vem realizando testes de interferência, o principal problema seria a potência das ERBs emitindo um sinal forte causando a saturação do sinal de vídeo e prejudicando ou impedindo o aparelho de recebe a transmissão das emissoras de TV, mesmo que ele não esteja sintonizado nos canais que sofrem interferência do LTE. Isto se dá, segundo Omi, porque os receptores de TV Digital possuem um filtro que amplifica a entrada de toda a faixa UHF (470-806 MHz) e a proposta onde a banda de LTE deverá ser alocada interfere nos canais 52 a 69. Além do problema do legado dos aparelhos analógicos citados anteriormente, soma-se a dos aparelhos já produzidos e que captam o sinal digital (45 milhões de unidades) e que já saem de fábrica com filtros de entrada, portanto, sujeitos a interferência.

Segundo Omi, este não é um problema brasileiro. O Reino Unido, a França e o Japão também vêm realizando testes para medir e sanar a interferência causada pelo LTE. No Japão os estudos iniciais apontam que será necessária a implantação de filtros na transmissão do LTE e nos receptores de TV. E propõe que haja uma substituição nas antenas domésticas por antenas de alta performance, o que naquele país pode representar um investimento na ordem dos três bilhões de dólares. No Brasil, as antenas mais comuns possuem baixo ganho e pouca diretividade, o que agrava ainda mais o problema.
Do outro lado desta questão está o interesse das operadoras de telefonia nessa faixa do espectro e a oferta dos serviços 4G. A faixa dos 700 MHz é imprescindível para as operadoras devido ao custo de instalação do sistema por permitir um número menor de antenas, com maior potência de irradiação (até 40 km) do que o sistema 2,5 GHz (6 km). Cálculos demonstram que o custo na faixa dos 700 MHz é cinco vezes menor. Desta forma, para cidade com baixa densidade populacional e na zona rural (rodovias) só é economicamente viável ofertar o LTE na faixa dos 700 MHz. Contribui para a urgência em se regular essa questão a alta demanda por serviços móveis de telefonia.

De acordo com Eduardo Levy, diretor executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil), a demanda por banda larga móvel crescerá muito no País e a faixa de 700 MHz é essencial para o atendimento dessa demanda. Atualmente o Brasil conta com 106 milhões de acessos em banda larga e 80% desses acesos são realizados por dispositivos móveis, alcançando 89% ou 3.414 municípios que contam com a cobertura 3G. Em 2017, o vídeo será responsável por 72% do tráfego móvel.

Do lado do governo Federal a promessa é que ninguém ficará sem a programação das emissoras na televisão digital. Para isso a promessa é que o regulamento seja aprovado até setembro/outubro de 2013. A Consulta Pública do edital de licitação do 700 MHz deve ser publicada até o final do ano e o leilão deve ocorrer ainda no primeiro semestre de 2014.

Outra questão prática que o governo Federal está estudando para não privar parte da população ao acesso à programação televisiva é a possibilidade de subsidiar a compra de decodificadores para a população de baixa renda. Gordon Smith, presidente da NAB, afirmou durante o Congresso da SET 2013 que nos Estados Unidos essa prática foi realizada. O set-to-box foi comercializado por cinco dólares e o subsídio custou ao governo americano mais de 3 bilhões de dólares.

Ocorrido o leilão da faixa dos 700 MHz surge a dúvida sobre o uso da faixa de 2,5 GHz que também é destinada aos serviços 4G e o temor de que essa faixa fique esvaziada caso as operadoras de telefonia prefiram adotar somente a faixa de 700 MHz. Contudo, o Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, não vê essa possibilidade, pois a faixa de 2.5 GHz foi licitada em junho de 2012 com metas estabelecidas e que deverão ser cumpridas independentemente da licitação de outras faixas de radiofrequência.

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